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Unicamp vive polarização ideológica

Cidades

ELIAS AREDES CAMPINAS | 03/05/2018-23:21:31 Atualizado em 03/05/2018-23:18:11
O DEBATE | Auditório lotado com apoiadores das duas chapas acompanhou o debate de ontem na Adunicamp

Apontada como uma das mais importantes instituições universitárias da América Latina e principal referência acadêmica da Região Metropolitana de Campinas (RMC), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) vive, neste momento, uma disputa ideológica sem precedentes. O palco da disputa é a eleição para a nova diretoria da Associação dos Docentes da Unicamp (Adunicamp) que, pela primeira vez desde sua fundação, há 40 anos, terá chapas de situação e oposição e com posições ideológicas diametralmente opostas. De certa forma, a posição das duas chapas reflete a polarização observada hoje na sociedade brasileira, mas sua ocorrência no ambiente acadêmico é novidade.
O pleito será realizado nos dias 9 e 10 de maio e estão habilitados a participarem 2.235 docentes, sendo que aproximadamente 43% são aposentados. A chapa 1, apoiada pela atual diretoria tem como candidato a presidente o cientista político Wagner Romão, professor da Unicamp desde 2014 no Instituto de Ciências, Filosofia e História. A oposição é liderada por Sérgio Santos Muhlen, professor da Faculdade de Engenharia Elétrica.
Em um debate ocorrido nesta quinta-feira, 3, no auditório da Adunicamp, os dois candidatos protagonizaram um evento com cara de eleição majoritária, com direito a aplausos e apupos de ambos os lados. Enquanto Romão tinha um alinhamento de ideias e conceitos defendido por movimentos centro esquerda e até de esquerda, Muhlen buscava se contrapor ao ideário do oponente, defendendo ideias que hoje estão claramente definidas no espectro da direita e centro direita.
Tanto um como o outro mostraram diferenças radicais em relação aos objetivos que pretendem para a entidade e para o ensino público universitário. Romão defendeu uma atuação forte e sindical da entidade, em defesa das condições de trabalho dos professores, enquanto Muhlen defendeu a necessidade da Adunicamp retornar ao seu caráter original de "associação" e preocupado principalmente com a maior participação dos filiados.
COTAS E POLÍTICA
"A Adunicamp é um espaço do docente. Se a comunidade for majoritariamente de pessoas com alinhamento partidário não há problema. O que não é correto é a diretoria fazer isso. O referencial da Unicamp deve ser o seu associado", disse o candidato oposicionista. "Sou contrário ao uso partidário da entidade, mas não sou contra a ação política da Adunicamp. A representatividade começa aqui, e isso é ação política", rebateu Wagner Romão.
Enquanto Romão defendeu a necessidade da Adunicamp continuar em defesa de uma universidade gratuita e com instituição de cotas para negros e pessoas de baixa renda, Muhlen resolveu sair pela tangente e disse que este assunto é algo que deve ser definido em conjunto com a categoria.
Outra controvérsia fortemente ideológica entre os dois candidatos foi a da filiação da Adunicamp ao Sindicato Nacional dos Docentes de Ensino Superior (Andes). Romão defendeu o fortalecimento da presença na entidade enquanto que Muhlen afirmou que é preciso consultar a categoria para ver se este é o desejo de todos. "Particularmente acho a filiação ao Andes uma ideia equivocada", disse. Já para Romão, a filiação ao Andes permite que as reivindicações e posições da Adunicamp sejam tratadas em conjunto com todas as demais universidades públicas do país.
ENQUETES
Um dos ingredientes da batalha ideológica travada no debate foi a questão de enquetes promovidas pela Chapa 2 junto a professores. Uma das enquetes foi sobre a greve das universidades paulistas realizada em 2016 e cuja participação da Adunicamp gerou reações adversas em alguns setores do campus. "As enquetes foram o grande fato político da Associação nos últimos anos", defendeu Muhlen. Entre as perguntas formuladas estava a se o docente estava satisfeito com a atuação da Adunicamp, num questionamento direto da atual gestão, eleita e reeleita nos últimos quatro anos.
Para Romão, as enquetes têm efeito questionável e podem ser manipuladas. Assim, embora possam ser usadas para questões específicas - como o cardápio do restaurante da entidade, exemplificou - não podem substituir decisões que são tomadas durante o debate em assembleias e na atuação sindical.
As enquetes também sofreram contestação, pois teriam sido veiculadas pela rede interna da Unicamp, de responsabilidade da Reitoria da universidade, o que poderia configurar uso inadequado do sistema. O ato recebeu advertência da Comissão Eleitoral, mas a Chapa 2 nega que tenha utilizado o sistema.