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Não é pelos R$ 4.377,73

Opinião

Valdemir Pires | Economista, professor e pesquisador do Departamento de Política Pública da Unesp - 14/04/2018-19:23:58 Atualizado em 14/04/2018-19:20:43

Não é contra o pagamento de R$ 4.377,73, a título de auxílio-moradia, aos juízes que a indignação da opinião pública se levanta. É contra o fato de que a nenhum brasileiro, que paga os tributos de onde serão retiradas as tais "bolsas", é dado acesso a benesse dessa natureza (muito menos em tal magnitude), devendo cada um se virar com habitação (prestação do crédito imobiliário ou aluguel) fazendo uso do salário que consegue (em média R$ 2.500,00, puxada para cima por conta de altíssimas remunerações, inclusive a dos juízes, pois o piso é muito menor, salário mínimo não chegando a mil reais).
A oposição a este gasto público acontece, também, por conta da avaliação negativa do desempenho de juízes e do Judiciário que a população tem feito. Esse desempenho não tem sido dos melhores. Quem necessita acionar os serviços do Judiciário ou é por alguém nele acionado, sabe o calvário que isso implica, em termos de morosidade e tratamento que não raro beira o desrespeito ao cidadão. Além disso, a percepção (correta ou não), em anos recentes, de um componente de parcialidade político-ideológica e partidária em julgamentos, e na acolhida ou não de certas denúncias, fere a imagem de conjunto dos que atuam com no Judiciário.
As condições de trabalho de juízes, cercada de aspectos que podem ser considerados mordomias, também não contribui para que a opinião pública, formada a partir da percepção de gente comum, que rala todo dia sob condições muito distintas, sejam em fábricas, fazendas ou escritórios, seja favorável aos de toga.
Não é possível acreditar que de indivíduos que se beneficiam de injustiça distributiva tão notável em termos de renda, com facilidades para determinar as próprias remunerações que nenhum agente econômico OU político tem, possam, de fato, portar grandes preocupações com justiça em outros âmbitos da vida. Vivendo num mudo completamente à parte daqueles a quem julgarão, é possível que desenvolvam um tipo de sensibilidade que tende a se distanciar dos pobres e comuns.
No Judiciário o controle e o saneamento pelo voto de tempos em tempos não funcionam para reaproximar o povo dos governantes; neste poder a consciência e a atitude republicanas requer muito mais cuidado no tocante a princípios e zelo com a imagem. E as punições para os desvios não podem, jamais, ser, um prêmio: a aposentadoria, com total dos rendimentos.
É por esses valores e princípios republicanos que a opinião pública se bate, hoje, indignada. Não é pelos R$ 4.377,73, embora eles aumentem, ainda mais, um padrão remuneratório que está acima do internacional, frente a uma capacidade tributária muito abaixo de muitos países, e frente a uma carência de políticas sociais que atualmente está sendo afrontada por cortes nos orçamentos públicos, atuais e futuros.