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A economia do oportunismo

Opinião

Valdemir Pires | Professor do Departamento de Administração Pública da Unesp de Araraquara - 04/04/2018-22:24:06 Atualizado em 04/04/2018-22:20:10

Os mais recentes avanços da teoria econômica, além daqueles proporcionados pela impressionante potência calculadora fornecida por novas tecnologias computacionais (permitindo a construção e manejo de sofisticados modelos econométricos), têm a ver com novos conceitos como free rider, moral hazard, rent seeking, custo de agência, "tragédia dos comuns" e assemelhados. Conceitos que trazem à tona o lado negro do mercado e do comportamento econômico racional, há pouco incensado como se o bom-mocismo fosse o ponto de partida e de chegada do egoísmo maximizador de renda, de benefícios, de bem-estar individual.
Free rider (ou o carona) flagra o oportunismo daqueles, por exemplo, que fogem de pagar tributos quando percebem que, no grande número, os que pagam não notarão a ausência de sua contribuição ao bem público, por ele igualmente consumido. Na "tragédia dos comuns" o estrago produzido pelo egoísta é maior: danifica ou esgota algo que é um bem de todos, com atitudes e decisões exclusivamente pessoais, maximizadoras de sua posição no curto prazo.
A ideia de risco moral (moral hazard) revela que o tempo todo há gente procurando levar vantagem sobre os demais, querendo ganhar sem contribuir; por exemplo, tentando passar por saudável para ser incluído em seguro saúde, quando já está com o pé na cova - eleva os custos do grupo, pagando menos do que o grupo com ele dispende.
COMPORTAMENTO
Com isso os prêmios de seguro se elevam, preventivamente. Rent seeking (algo como caça à renda) vai na mesma direção: o agente econômico procura obter renda sem nada agregar de valor, apenas manipulando elementos do ambiente econômico ou variáveis institucionais.
Os comportamentos oportunistas (ou egoístas desferidos contra os outros), ao contrário do egoísmo inocente do padeiro que, querendo mais carne, fornece mais pão ao açougueiro, em troca (no exemplo dado por Adam Smith), são destrutivos, obrigam que barreiras sejam erguidas contra eles, explicitamente, gerando os custos de agência.
Hoje em dia, os regulamentos, organizações e instituições existentes com esta finalidade são inúmeros. E, pior, correm sempre o risco de captura: por exemplo, uma agência reguladora dos serviços de telefonia cujos dirigentes acabam favorecendo os interesses das empresas em detrimento dos usuários.
A literatura sobre esses temas e problemas gera um mar de páginas e um oceano de links. Não obstante, tem gente, por aí achando que um caipira de toga qualquer pode ser capaz de acabar com a corrupção sistêmica de um país inteiro.