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Documentários do Brasil e do mundo

Cultura e Entretenimento

NAIEF HADDAD SÃO PAULO | 11/04/2018-23:35:58 Atualizado em 11/04/2018-23:31:23

No Rio, mães protestam contra a morte dos seus filhos adolescentes por policiais.
Em enorme campo de refugiados na Jordânia, um artista sírio reconstitui em murais áreas de seu país que deixaram de existir. Nos EUA, comentaristas pregam a eliminação dos muçulmanos.
Filmes sobre temas políticos, sociais e religiosos em ebulição no Brasil e no mundo estão entre os destaques do 23º festival internacional de documentários É Tudo Verdade, que começa nesta semana. Ao todo, serão 55 filmes, entre longas e curtas.
Em São Paulo, a edição começou ontem, 11, com a exibição para convidados de filme sobre o compositor Adoniran Barbosa. No Rio, o início se dá com documentário sobre o ator e diretor Hugo Carvana na quinta, 12, também em evento fechado.
Embora se dedique nas duas aberturas a nomes de peso histórico da cultura brasileira, o que sinaliza um olhar para o passado, o É Tudo Verdade reserva bom espaço para produções que abordam crises contemporâneas.
"De tempos em tempos, há edições do festival que refletem safras mais coladas ao presente. Foi assim, por exemplo, em 2003 e 2004, no auge da Guerra ao Terror pós-11 de Setembro", diz Amir Labaki, diretor do evento.
RESISTÊNCIA
Entre os documentários brasileiros, "Auto de Resistência" ocupa bem esse papel. O filme dirigido por Natasha Neri e Lula Carvalho registra casos de jovens moradores da periferia carioca que foram mortos por policiais.
Acusados de envolvimento com o tráfico de drogas, esses adolescentes teriam morrido depois de trocas de tiros. Mães e advogados, contudo, enfatizam a fragilidade das declarações oficiais.
Recém-concluído, o documentário lembra que 154 pessoas foram mortas em janeiro deste ano por policiais do estado do Rio, que alegaram legítima defesa, resultando nos "autos de resistência". O número constitui recorde. O filme é dedicado, entre outros, a Marielle Franco, assassinada em março. A vereadora do PSOL aparece em breves passagens.
"O Processo" é outra atração ligada ao noticiário recente. O filme de Maria Augusta Ramos ("Justiça", "Juízo") acompanha os bastidores da política nas semanas que antecederam o impeachment de Dilma Rousseff (PT). De acordo com Labaki, o filme "confirma o raro talento de Maria Augusta em imprimir um olhar cinematográfico todo próprio, formalmente ascético e pictórico, aos universos dos quais escolhe se aproximar".
EUA, SÍRIA E UCRÂNIA
As obras concebidas sob temperatura alta vão além da realidade brasileira.
Uma delas se volta sobre Zaatari, campo de refugiados na Jordânia que reúne cerca de 80 mil sírios. Dirigido pelo brasileiro Paschoal Samora ("A Chave da Casa"), o documentário leva o nome desse aglomerado no deserto. Há personagens notáveis, gente que perdeu familiares na guerra, mas soube se reinventar em outra realidade.
É o caso do pintor que reproduz em murais as cidades tais quais eram antes da guerra, como Homs. E da professora que ensina fotografia para um grupo de meninas.
De modo geral, "Zaatari" segue os cânones da linguagem documental, diferentemente do que ocorre com "Filmmakers Unite", produzido pelos americanos Jay Rosenblatt e Ellen Bruno.
Trata-se de um mosaico com 13 filmetes, cada um com cerca de seis minutos, sobre o início do governo Donald Trump. Os tons variam do humor à melancolia, do documentário convencional à ficção mais delirante.
O soturno "Muslim Meme" nos leva por uma estrada ouvindo estações de rádio cujos comentaristas pregam a eliminação dos muçulmanos. Já "Little Donnie" faz paródia dos filmes de terror, com um assustador boneco Trump.
Merece menção ainda "O Distante Latido dos Cães", do dinamarquês Simon Wilmont. Mostra como os conflitos entre Rússia e Ucrânia afetam a vida de seis crianças.
Labaki também chama a atenção para outra vertente nesta edição do festival, "os documentários que pesquisam ecos do passado no presente". Um deles é "Missão 115", sobre o atentado a bomba no Riocentro, em 1981.
Também vai por essa linha "A Batalha de Argel", a respeito da influência do clássico de 1965 do diretor italiano Gillo Pontecorvo. | FOLHAPRESS