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Francisco chega aos 100 anos cultivando e escrevendo a vida

Cidades

BETO SILVA AMERICANA | 28/04/2018-18:18:35 Atualizado em 28/04/2018-18:15:04
TUDO BEM | Após os 90 decidiu se cuidar e iniciou a natação

Há exatos 100 anos, em 29 de maio de 1.918, na cidade de Rio Largo, em Alagoas nascia Francisco Eduardo Bezerra. Seguindo a tradição das famílias típicas daquela região do estado, desde criança Francisco trabalhou na lavoura com os outros irmãos. Em 1.948, aos 30 anos, já casado e com três filhos, ele aceitou o convite do irmão mais velho, deixou o Nordeste e, numa viagem de navio com a família, seguiu de Maceió para o Rio de Janeiro. O destino era a cidade de Junqueirópolis, no interior paulista, para onde sua mãe se mudou com o irmão, após a morte do pai.
"Meu irmão veio com minha mãe e eu fiquei porque o dinheiro era pouco para trazer todo mundo, meu irmão trabalhou e mandou o que conseguiu para eu viajar com minha família", contou.
Em Junqueirópolis, a falta de trabalho inquietou o alagoano que decidiu buscar outros horizontes. Depois de conseguir emprego na Estrada de Ferro Sorocabana, onde trabalhou por décadas. Graças ao emprego, Francisco morou em outras cidades do interior, como Presidente Prudente, Regente Feijó e Presidente Bernardes.
Em 1.958, pela primeira vez, o agricultor se viu sem trabalho. Preocupado, ele aceitou emprego em uma cerralheria em Presidente Prudente. Nove anos depois, mudou-se para Santa Bárbara d'Oeste e hoje mora em Americana com a filha caçula Ester, depois de ficar viúvo.
GOSTO PELA LITERATURA
A história de Francisco Eduardo Bezerra é comum e lembra a trajetória de muitos migrantes nordestinos que buscaram São Paulo como opção ante a seca e a escassez de trabalho no sertão brasileiro.
A diferença deste sertanejo está no gosto apurado pela leitura, na paixão pela poesia e pela adoração aos nomes da literatura, como Machado de Assis, Castro Alves, Casimiro de Abreu e Camões. Foi lendo as obras desses escritores que o alagoano tomou gosto pela poesia e decidiu escrever seus próprios versos.
Poesias que se assemelham aos repentes (arte nordestina baseada no improviso). Apesar de ter sucesso na composição de versos e prosas, Francisco admite não ser bom cantor nem tampouco tocador de instrumento. "Viola é instrumento de unhas, o único instrumento de unha que toco é me coçar, quando preciso", disse às gargalhadas.
Em suas poesias, ele retrata o amor, homenageia cidades onde morou e ataca (de forma bem humorada) aqueles que exageram na bebida. "Eu nunca bebi,mas fumei durante 30 anos, hoje tomo apenas um vinho muito de vez em quando", contou olhando para a caçula que não admite excesso por conta dos remédios que toma para artrite.
SEM TEIMOSIA
Questionado sobre o segredo de se chegar aos 100 anos de idade, com lucidez e saúde, Francisco enumera o requisitos: não beber, não fumar, não exagerar no sal, comer legumes e verduras e, principalmente, não teimar com ninguém.
"Se você está falando para o 'cabra' que o rio corre para um lado e ele teima em dizer que é para outro, deixe ele achar que está certo. A teima gera brigas, morte e até a Guerra, não teime", aconselhou.
Na lista de requisitos para a longevidade, Francisco acrescenta atividades físicas. Após os 90 anos, ele passou a fazer natação e atualmente frequenta uma academia de ginástica duas vezes por semana. A rotina o centenário inclui acordar por volta das 9h, fazer o próprio café, ir à a academia, ler, cuidar das plantas, dar um passeio rápido pela vizinhança.
Para a filha Ester, que cuida do pai há 22 anos, é uma honra e uma alegria muito grande acompanhá-lo nesta etapa da vida. "Quando ele não estiver mais aqui, só quero sentir saudades, nunca remorso por não poder ter cuidado dele", contou emocionada.
Francisco se reúne neste domingo para um almoço especial com cinco filhos, 25 netos, 25 bisnetos e seis tataranetos para comemorar a vida, uma vida cultivada e escrita pelas mãos de um agricultor, que também escreve sua trajetória com sentimento e verdade.