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Malária na mira de pesquisadores

Cidades

MANOEL ALVES FILHO CAMPINAS | 11/03/2018-21:19:43 Atualizado em 11/03/2018-21:17:59
MECANISMO | os professores Carolina Horta, Fabio Costa e Elizabeth Bilsland: estudando o triclosan

Depois de registrar um período de quedas sucessivas dos casos de malária, o Brasil constatou um importante aumento dos números relacionados à doença em 2017. De acordo com dados do Ministério da Saúde, foram consolidadas 174.522 notificações entre janeiro e novembro do ano passado, contra 117.832 em 2016, numa variação de 48%. As causas do avanço da enfermidade são variadas, entre elas a falta de investimento público nas ações de controle.
Independentemente das deficiências das políticas públicas e do comportamento cíclico da malária, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), de diferentes áreas do conhecimento, não descuidam da doença em seus estudos. Os cientistas têm investigado métodos e tecnologias que possam contribuir para a prevenção e o tratamento desse mal, que traz significativos custos sociais e financeiros para o país.
Uma dessas pesquisas é conduzida pela equipe da professora Elizabeth Bilsland, do Instituto de Biologia (IB). Os estudos realizados pelo grupo, em colaboração com as universidades de Cambridge (Reino Unido), Manchester (Reino Unido), Gotemburgo (Suécia) e Universidade de São Paulo (USP), constaram que o triclosan, um composto utilizado há décadas na formulação de sabonetes e cremes dentais, é capaz de inibir os genes-alvo do parasita causador da malária (o mais prevalente no Brasil é o Plasmodium vivax), tanto em sua fase hepática, quando se desenvolve nas células do fígado, quanto na fase eritrocitária, quando se multiplica nas células do sangue.
ROBÔ CIENTISTA
Os resultados do estudo, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), foram publicados em janeiro na Scientific Reports, importante revista do Grupo Nature. De acordo com a professora Elizabeth, o trabalho fez uso de um robô com inteligência artificial que está baseado em Manchester. Sua tarefa foi fazer a triagem em larga escala das leveduras construídas pela docente com o propósito de identificar que compostos eram capazes de inibir o alvo do Plasmodium.
Dito de modo simplificado, o que a pesquisadora fez foi otimizar a busca ao desenvolver um método no qual os genes das leveduras foram substituídos por genes humanos e genes-alvo de parasitas causadores de diferentes doenças, entre elas a malária. "Nós marcamos cada levedura com uma proteína fluorescente de cores variadas. Isso nos permitiu cultivar diferentes variedades de leveduras modificadas em um mesmo poço e tratá-las simultaneamente com milhares de drogas. Com a ajuda do robô cientista, nós verificamos quais compostos inibiam o crescimento das leveduras com o gene do parasita, mas não afetavam as que tinham o gene humano", explica.
Um dos compostos mais promissores nesse sentido, segundo a cientista, foi o triclosan. "Trata-se de um antimicrobiano empregado em produtos de uso diário da população. Nos testes que realizamos, o composto se mostrou capaz de inibir alvos até mesmo de parasitas resistentes aos medicamentos utilizados atualmente no tratamento da malária. Essa capacidade faz do triclosan, sem dúvida nenhuma, um excelente candidato ao desenvolvimento de um novo fármaco para combater a doença", considera a professora Elizabeth.
O grupo da Unicamp, com a colaboração dos pesquisadores das demais instituições, também desvendou o mecanismo de ação do composto. Conforme a docente, o triclosan age contra uma enzina denominada FAS-II, que cumpre função importante para a sobrevivência do parasita na fase hepática. Ao mesmo tempo, inibe outra enzima, a DHFR, que desempenha o mesmo papel, mas na fase eritrocitária. "Essa descoberta é relevante porque abre a possibilidade de o composto ser utilizado no tratamento tanto da fase aguda quanto da fase crônica da malária", afirma a professora Elizabeth.
A pesquisadora assinala que os pacientes com malária vivax, a que mais ocorre no Brasil, permanecem com o parasita em estágio "dormente" no fígado por vários meses. "Cerca de 5% dos pacientes não podem utilizar nenhum dos dois fármacos disponíveis hoje em dia para o tratamento do estágio dormente do parasita, pois eles podem provocar a ruptura das células do sangue. "Como conhecemos os alvos a serem atacados, podemos otimizar o triclosan para que ele aja simultaneamente nas duas fases da doença", antevê a docente.
ALGORITMOS
O futuro das pesquisas em torno do desenvolvimento de fármacos antimaláricos passa necessariamente pelo uso de recursos computacionais que otimizem a triagem de compostos. A opinião é do professor Fábio Trindade Maranhão Costa, coordenador do Laboratório de Doenças Tropicais, ligado ao Departamento de Genética do IB. "Atualmente, dependendo do algoritmo utilizado e da experiência do manipulador, nós podemos fazer uma boa predição acerca da potencialidade de determinados compostos. Com esse tipo de ferramenta, conseguimos partir de milhões de opções para chegar a um pequeno grupo de interesse", afirma.
O foco do laboratório coordenado pelo professor Fabio é justamente as pesquisas voltadas ao desenvolvimento de novos fármacos e vacinas contra as doenças tropicais, notadamente a malária, enfermidade que provoca cerca de 500 mil mortes ao ano no mundo, algo como metade da população de Campinas. Um dos estudos em andamento é conduzido pelo pós-doutorando Gustavo Capatti Cassiano. Ele utiliza ferramentas computacionais para selecionar e predizer que compostos, entre milhões de opções, são ativos e combateriam o parasita causador da malária.
Os modelos computacionais, observa Cassiano, foram desenvolvidos em parceria com o grupo da professora Carolina Horta, da Universidade Federal de Goiás (UFG). Ao utilizar o sistema, os pesquisadores chegaram a cerca de 100 compostos de interesse. "Nós submetemos todos eles a testes in vitro, contra o estágio sanguíneo do patógeno. Dois compostos se mostraram muito promissores. Esse é um exemplo de como as técnicas de triagem virtual podem acelerar o processo. Sem elas, levaríamos muito tempo para tentar chegar ao mesmo resultado", considera. | JORNAL DA UNICAMP