OK
Close

Leopoldo não quer filho

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 02/08/2017-22:41:21 Atualizado em 02/08/2017-23:01:01

Meu amigo Leopoldo (nome trocado a pedido de nosso protagonista) anuncia que não quer ter filhos. O estranhamento se estabelece no ambiente, todos trocam olhares surpresos. Os demais amigos julgávamos, numa espécie de consenso jamais declarado, que Leopoldo seria um ótimo e inevitável papai (responsável, correto, paciente).
Josias (nome trocado para não desmascarar Leopoldo), outro amigo do grupo, quebra o silêncio:
- Mas, Leopoldo... por quê?
Leopoldo é lacônico, mas vai ao âmago da questão:
- O custo-benefício não compensa.
O ambiente desaba em gargalhadas. Este Leopoldo é impossível, diz alguém, quase com lágrimas nos olhos de tanto rir. Leopoldo não ri. Leopoldo não é impossível. Leopoldo não está brincando.
A reação dos amigos então alterna para a estupefação. Confrontados pela honestidade crua e dura de Leopoldo, uma honestidade quase hedionda, cobram mais explicações; querem os detalhes, os malditos detalhes do raciocínio do amigo.
Leopoldo os enumera com tranquilidade, desprovido da passionalidade dos parciais. No campo dos custos estão o óbvio ululante (menos tempo livre, mais dinheiro gasto, mais preocupações, e ainda: "vai que o menino queira jogar com meus videogames?")
E os benefícios? Como poderia Leopoldo calcular os benefícios se não experimentou ainda o amor paterno, murmuram os amigos. Pois é. A chave da resposta está na própria pergunta. Os custos são conhecidos, já o benefício, o suposto benefício, frisa Leopoldo, é um grande buraco negro. Não se sabe qual é, quando virá e se virá. Um salto no escuro. E o pior, pontua Leopoldo, é que o resultado "não depende de você".
Com esta última frase Leopoldo quis dizer que você pode investir rios de dinheiro e afeto e regras e mesmo assim ver florescer um pequenino marginal no quarto ao lado. Não há controle.
Os amigos não se conformam. Os que não são pais, curiosamente, se revelam os mais indignados. Leopoldo, geralmente um sujeito aberto a pontos de vista diferentes, está imune a argumentos. Sua opinião é segura, imutável.
Nem sequer se arrepende do termo custo-benefício, que chocou tanto o grupo. Acha que não disse nada demais, e encerra a discussão com um firme menear de cabeça, como se todos, qual cegos, não pudessem enxergar o óbvio. Josias murmura, ainda inconformado: "Não acredito que o cara está calculando o custo-benefício de um ser humano" - Josias também não é pai, mas tem planos sólidos ("quero três, o primeiro aos 31").
Durante a conversa, lembrei de um trecho de "Amor Líquido", o célebre livro do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Em determinado momento, Bauman disserta sobre o avanço da figura do filho de acordo com o desenvolvimento industrial. Em linhas gerais, argumenta, os rebentos não são mais necessários como o foram no passado, quando tê-los significava ampliar a força de trabalho da família. Até aí, o óbvio.
Mas se os filhos não são mais necessários, raciocina o sociólogo, qual seria então o papel deles na atual estrutura social?
Numa era em que é possível escolher, personalizar e programar quase tudo, por que alguém vai se propor a gastar e empenhar tantos esforços em algo cujo retorno é totalmente imprevisível? Bauman dá seu duro veredito: na modernidade líquida, o filho se tornou um objeto de consumo emocional.
Não havendo nenhuma força natural ou social que impulsione as pessoas a procriarem, a paternidade/maternidade se torna uma forma de adquirir emoções que não se poderia comprar de outro modo. Até o "salto no escuro" da paternidade/maternidade ganha a embalagem de produto.
O que meu amigo Leopoldo fez não foi justamente pensar a paternidade segundo o conceito de Bauman, o conceito de produto? Analisou os possíveis prós e contras e disse não, obrigado. Prefere sua vida assim assim, sem grandes expectativas de emoção, sem grandes possibilidades de frustração e angústia.
Não sei se Leopoldo leu Bauman. Antes que eu pudesse pensar em perguntar, algum dos amigos praguejou, evocando a eterna ameaça da mão firme do imponderável sobre a frágil tranquilidade de uma vida calculada.
- Tomara que tua camisinha fure, Leopoldo.