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Egídio e o tribunal

Lance Livre por Claudio Gioria

Claudio Gioria | Editor-chefe do TODODIA e escreve aos sábados - 11/08/2017-23:04:48 Atualizado em 11/08/2017-23:51:01

Egídio é o mais novo vilão do futebol brasileiro.
Quando na quarta assumiu a responsabilidade e caminhou para bater um pênalti decisivo, era um candidatíssimo a esse posto, esse de vilão. Está longe de ser querido pela torcida, tanto que até Cuca já havia pedido um pouco mais de paciência com o seu pupilo. Isso o tornava um vilão em potencial. Tinha tudo a perder, nada a ganhar. A obrigação era toda dele. E se perdesse a cobrança, não haveria um próximo pênalti, como não houve.
Não cobrou tão mal, mas o goleiro foi bem. Outras cobranças foram muito piores que a de Egídio na quarta, mas os goleiros escolheram outro canto. Na de Egídio, Banguera acertou. E Egídio virou vilão.
Pênalti não é loteria. Segundo meus cálculos, tem 80% de capacidade técnica, 20% de outros fatores, que incluem, por exemplo, emocional e sorte (ou Guerra não teve azar ao escorregar em sua cobrança e sorte pelo chute errado ter entrado?). Onde Egídio pecou, não sei. Mas, com a camisa do Palmeiras, está condenado.
É aqui onde quero chegar.
Não morro de amores pelo futebol do Egídio, mas a condenação por um erro técnico é extremamente cruel e corriqueira no futebol. Não deveria ser assim.
Se realmente nós torcedores queremos fazer da arquibancada um tribunal, deveríamos ter um pouco mais de senso de justiça (meio absurdo pedir isso a um torcedor de futebol, mas vamos lá...). Deveríamos julgar outros tipos de casos. Erros técnicos, não.
Quer exemplos?
Agressões que levam um jogador a ser expulso são atos passíveis de "condenação" no tribunal da arquibancada. Falta de vontade, também. Displicência, idem. Como o pênalti que selou o futuro de Alexandre Pato no Corinthians. Como o pênalti que o Roger mandou para lua contra o Figueirense, também com a camisa do Corinthians. Como o vermelho de Zidane na final da Copa de 2006. Todos, atos compreensivelmente condenáveis dentro do futebol.
Para piorar tudo isso, a condenação hoje atinge níveis alarmantes devido às redes sociais, infladas por irresponsabilidades travestidas de brincadeiras.
Recém-saído da ESPN Brasil, Alê Oliveira, o homem dos decretos, publicou, assim que o jogo de quarta acabou, uma foto de Egídio com o seguinte texto: "Palmeirense, deixe aqui o seu recado pro Egídio".
Ah, é só uma brincadeira, alguns de vocês dirão... Me desculpem a ranzinzice, mas figuras públicas com milhares de seguidores não deveriam estimular o ódio contra quem quer que seja, mesmo que isso seja feito sob o disfarce do humor.
Ainda mais contra alguém que, simplesmente, errou um chute em um jogo de futebol. Teve um erro técnico. Isso se considerarmos que perder um pênalti é um erro técnico, porque também pode ser mérito do goleiro ou estar naqueles 20% dentro dos quais sorte e azar estão inseridos.
Egídio é um jogador nota 4. Pode até não estar à altura de ser titular de um clube como o Palmeiras. Tentou e se esforçou dentro de suas limitações. Não faltou vontade. Mas perdeu um pênalti decisivo, como Zico, como Marcelinho Carioca, como Edmundo, como milhares de jogadores que jogam muito mais do que o Egídio.
Criticar um jogador tecnicamente é uma coisa. Condená-lo é outra.
Ah... E o Palmeiras fez dois jogos contra o Barcelona abaixo de qualquer crítica, o que o condenou a passar 2017 sem título, apesar dos muitos milhões desembolsados.
Coisas do futebol.
Como perder um pênalti.