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Suspense 'The Sinner' bebe da fonte de Hitchcock

Cultura e Entretenimento

LUCIANA COELHO | FOLHAPRESS SÃO PAULO | 12/08/2017-16:53:32 Atualizado em 12/08/2017-16:50:51
Divulgação
JESSICA BIEL | Atriz que beirava o ostracismo teve de se reinventar

Confesse quem nunca teve vontade de matar aquele sujeito ao lado que ouvia música insuportavelmente alta. Pois Cora, a protagonista do suspense "The Sinner", converte vontade em ação e mata a facadas e às vistas de dezenas de banhistas, inclusive marido e seu filho pequeno, o homem na esteira ao lado que exagerava nos decibéis.
A premissa da série que acaba de estrear no canal americano USA com essa cena sangrenta, quase grotesca, soa simples e é engenhosa. Há momentos em que o diretor Antonio Campos e o roteirista Dereck Simmons parecem ter tomado uma ou duas lições de Alfred Hitchcock.
O que leva uma mulher de 30 e poucos anos aparentemente bem-sucedida emocional, afetiva e profissionalmente a esfaquear um estranho na praia diante da família dela, dos amigos dele e de inúmeras testemunhas repentinamente?
Será que eles se conheciam? Será que a música, ou o fulano, ou a cena, evocou algum trauma? Será que Cora sofre de algum distúrbio?
A atriz Jessica Biel entrega uma personagem que vive um turbilhão interno mesmo com cara de paisagem. Seu talento interpretativo até hoje passou despercebido, ao contrário de seu rosto hipnotizante. O filme mais conhecido é "O Ilusionista", um policial de época de 2006 em que faz a mocinha e é ofuscada por Edward Norton e Paul Giamatti, não exatamente um demérito.
Mas a Cora de "The Sinner" ("a/o pecador/a"), cruel e absorta, amorosa e contemplativa, promete uma latitude incomum para intérpretes femininas na TV, e a atriz, a julgar pelo primeiro episódio, agarrou a oportunidade vorazmente.
As cenas de flashback da protagonista são perturbadoras, dando sinais de que o fanatismo religioso e talvez um trauma sexual na infância tenham desempenhado seu papel na carnificina da praia.
Os pais da menina Cora (Jordana Rose, que também está em "Gypsy") são religiosos que a tratam sob a rédea curta da culpa. A mãe (Enid Graham) acusa-a da fragilidade física da irmã caçula; o homem que vive com elas - nunca fica claro se pai, padrasto ou outra coisa - é uma presença silente e aterradora.
No presente, a assassina Cora é presa logo após seu crime, deixando o marido (Christopher Abbott, o Charlie de "Girls") atônito.
O caso é entregue ao detetive veterano Harry Ambrose (Bill Pullman, de "A Estrada Perdida"). É o desconfiado Ambrose, que tem suas próprias perversões, o condutor da série, encarregado de trazer pela mão o espectador até o passado sombrio de Cora.
Simmons, que trabalhou no roteiro da ótima "When We Rise", estreia como "showrunner". É bastante gente inexperiente junta em uma produção de canal pequeno, com um grande ator sobre o qual começava a pairar a sombra do ostracismo encarregado do antagonista. Pode dar muito errado.
Da última vez que vimos isso, contudo, tivemos a genial "Mr. Robot". "The Sinner", por ora, parece quase tão promissora quanto.
"The Sinner" é exibida às quartas no canal americano USA e não tem previsão de estreia no Brasil