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Ecos do passado, poesia e filosofia

Cultura e Entretenimento

Rodrigo Pereira | Editor do jornal TODODIA e criador do blog: http://cinexistance.blogspot.com.br/ - 10/08/2017-22:36:20 Atualizado em 10/08/2017-22:33:03

"Somos apenas um momento no tempo", diz trecho de uma música da banda Anathema que muito já me fez refletir. Estamos construindo uma vida que segue de hoje até o futuro, mas somos as experiências que tivemos no passado. Sem elas, seríamos alguém? Se não é possível se apropriar do tempo, paralisá-lo, que sejam as lembranças a forma que encontramos de preservar nossa história. E se não soubermos lidar bem com elas, seguir em frente fica muito mais difícil.
"O Sentido do Fim" (Ritesh Batra, 2017) nos provoca a filosofar sobre tais temáticas. Sensível, a obra nos lança para o mundo de Tony (Jim Broadbent), um homem já na terceira idade que constrói uma nova vida na tentativa de esquecer o passado, mas que acaba rodeado por lembranças com a volta de antigos amigos, como uma antiga paixão, e a descoberta sobre a existência do diário de um amigo que já morreu. O protagonista vive uma rotina, que como ele mesmo descreve, é a busca por evitar a intensidade que almejava quando era jovem. Mas, nos detalhes, é toda estruturada no que experimentou em décadas anteriores. Tem uma loja de vendas de máquinas fotográficas, que não apenas são equipamentos utilizados para se buscar utopicamente paralisar um momento no tempo, como também compõem um mundo para o qual Tony foi atraído por uma ex-namorada, que lhe deu sua primeira Leica (famosa marca alemã). Estala os dedos da mesma forma como esse grande amor fazia. E, incansavelmente, inebria-se com sonhos lúcidos povoados por imagens reminiscentes de paixões e amizades que lhe marcaram para sempre. Assim, de forma sutil, o espectador é arrastado para o pretérito aos poucos e, quando se dá conta, o tempo contemporâneo da trama se resume a intervalos entre uma recordação e outra.
"O Sentido do Fim" traz uma feliz remissão ao clássico "Morangos Silvestres" (1957), no qual Ingmar Bergman mostra um idoso rabugento que passa a rememorar sua vida durante a viagem com sua nora. A viagem mais importante, tanto em uma obra quanto na outra, no entanto, é para dentro de si, em torno dos traumas, do que deixou de fazer, dos sentimentos reprimidos e das escolhas tortuosas. Essa autocrítica provocada por um distanciamento analítico, uma das chaves do pensamento de Arthur Schopenhauer, constitui uma das mais valiosas ferramentas para a harmonia entre passado, presente e futuro.
E, no trabalho de Batra, a todo momento temos referências ao tempo, à história, às memórias e suas relações com a existência. Na faculdade, Tony e os amigos viravam o relógio de pulso para baixo, evitando que os ponteiros ficassem à mostra, numa forma de contestação à forma como a sociedade lida com a passagem do tempo. Melhor amigo do protagonista, Adrian (Joe Alwyn) usa um conceito de Patrick Lagrange para provocar seu professor com a máxima de que nada pode ser conhecido na ausência do seu próprio testemunho, o que é um obstáculo para as investigações históricas. Na roda de amigos, lembram Albert Camus e sua tese de que o suicídio, o símbolo de um fim histórico provocado, é a única questão filosófica verdadeira. Aspirante a poeta, Tony ainda provoca citações aos poetas Dylan Thomas e Philip Larkin e suas obras trágicas.
Suicídio, romantismo e máculas antigas. O arco do personagem se fecha diante de um passado latejante que exige uma resposta do presente. E aí mora uma das explicações para o título da obra. A importância dos desfechos, apesar do valor ainda maior que tem a jornada.