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1925 foi hoje de manhã

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 13/07/2017-00:17:06 Atualizado em 13/07/2017-00:18:44

Mês passado um robô-jornalista (existe mesmo) do Los Angeles Times noticiou um terremoto de magnitude 6,8 na escala Richter na cidade californiana de Santa Bárbara. Seis vírgula oito é um baita tremor, dá pra destruir um bocado de coisas, mas ninguém sentiu nada. Não era mentira, a notícia só tinha um erro: o fato acontecera em 1925, e não naquela manhã.
Mil novecentos e vinte e cinco. Temer e Lula não tinham nem nascido. Faulkner não tinha escrito "O Som e A Fúria". Não existia Copa do Mundo. Noventa e dois anos de delay.
Alguém colocou um alerta errado no site da agência que monitora terremotos com base num mapa desatualizado e o robô, que na verdade é um programa de computador que escreve e publica notícias imediatamente, fez o que foi programado pra fazer: mandou bala. Não foi no Tabajara News, mas num dos grandes jornais americanos.
E antes que você pergunte "ah, jornalista humano não faz cagada?", eu digo que faz. Faz muita. Mata gente que não morreu, condena quem foi absolvido, enforca Jesus. Todos erros reais e publicados em jornais.
Mas o que surpreende não é um robô errar, é a confiança depositada num programa de computador. Como é que num caso desses não aparece um alerta para que os "jornalistas humanos" entrem em ação pra fazer o básico? (apanhar o telefone para perguntar ao Corpo de Bombeiros ou à Defesa Civil algo na linha "e o terremoto, e o terremoto?")
As matérias que li sobre o caso do Los Angeles Times não são totalmente claras (que surpresa), mas dão a entender que ninguém lê as notícias produzidas pelos robôs antes da publicação. E se é que alguém lê, não checa.
Em outra matéria, li que os robôs são muito utilizados nos dias de eleições municipais, naqueles textos "fulano é eleito com xx%". Imagine a confusão se alguém instala, por engano, o programinha da eleição anterior no computador do robô.
Robôs-jornalistas foram criados para dar "volume" em sites de jornais, como se diz. Aumentar o cardápio. Socar informação a rodo no ar. A intenção é produzir muita matéria, de uma gama ampla de interesses, pra dar aquela impressão de...Facebook, numa espécie de competição-imitação do cardápio amplo e diversificado do próprio Facebook. Jornais estão como baratas tontas. Enfiados na crise, vendo seus anúncios minguarem, tentam se espelhar no que parece que está dando certo (e o que é que deu mais certo que a firma do Mark Zuckerberg?)
Só que, como disse Charlie Beckett, jornalista e professor da London School of Economics, em recente entrevista ao El País, "as notícias são uma parte minúscula dessas redes" (Facebook, Twitter).
Quem abre uma rede social quer, antes de tudo, se divertir. Nenhum problema.
O problema é que essa fonte de divertimento está se tornando o modelo de negócios de muitos (eufemismo para não dizer quase todos) jornais. E a explicação é sempre: "é isso que a turma quer, a turma quer isso, a turma, a turma, a turma..."
Temos futuro. Ninguém pode dizer que a turma não se divertiu com o terremoto de 1925.