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Diga xis

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Jornalista, é editor executivo do jornal TODODIA - 06/07/2017-00:24:53 Atualizado em 06/07/2017-00:27:21

Outro dia contei aqui que o primeiro jornal em que trabalhei não tinha telefone, não tinha carro, não tinha câmera fotográfica. Engano meu. Havia uma câmera fotográfica.
Descobri no quinto dia de trabalho, quando me preparava para cobrir o velório de 12 professoras de Sumaré mortas num acidente de trânsito. O dono do jornal esquadrinhou um armário, arrancou caixas e jornais velhos e encontrou a câmera, uma daquelas pequenininhas, de filme. Desembrulhou-a de seu invólucro como a um tesouro e partiu com o equipamento no pescoço para o velório - a tragédia exigia. Isso foi em agosto de 2001.
A máquina era igualzinha àquelas que só saíam das caixas nas festas em família, tipo Natal e Ano Novo. Todo mundo se espremia ombro a ombro, e o fotógrafo orientava como um perito ("abaixa, tá na frente da tia)". Geralmente só havia um ou dois habilitados a capturar as imagens, o resto estragava tudo quando punha a mão na câmera. Poucas imagens solo eram produzidas, a revelação de um filme de 36 fotos custava uma pequena fortuna. No álbum da minha família deve ter só umas sete fotos de quando eu era moleque.
No terceiro jornal em que trabalhei, por volta de 2003, havia já uma maravilha tecnológica, uma câmera digital da Mavica, 2.0 Megapixels. E a turma dizia: dois ponto zero?
Funcionava a base de disquetes e era um trambolho quase do tamanho de um tape de carro antigo (daqueles que os caras carregavam pras churrascarias aos domingos, de mocassin e camisa polo por dentro da bermuda). Cada disquete da Mavica suportava oito fotos em boa resolução.
Do acionamento do botão até o barulhinho do clique, passavam-se uns cinco segundos. Você prendia a respiração para não tremer e não estragar a foto - apagar uma imagem não era tão simples. Saíamos com bloquinho, caneta, a Mavica e os bolsos cheios de disquetes.
Não me lembro quando a coisa começou a evoluir rápido demais, talvez eu tenha esquecido justamente por causa da velocidade da evolução. Câmeras digitais mais potentes, cliques instantâneos, morte social dos filmes fotográficos, memória embutida, celulares com fotos, Iphones, celulares com resolução melhor que a de câmeras, 38 cliques por segundo...não sei como chegamos aqui, mas, a julgar por nossos hábitos, parece que não houve ontem.
Viramos bichos à espreita, em eterna tocaia. Temos hoje à mão um assombro da tecnologia, e não usá-lo parece quase pecado. Não importa se não há o que fotografar, não importa se há quem fotografar. Se não há ninguém, está lá uma paisagem qualquer; se não existe paisagem, há nós mesmos.
Vou ao McDonald's, há um cara sozinho na mesa ao lado, degusta alguma novidade da casa. Para de deslizar o dedo na tela do smartphone, mira o lanche com as costas do aparelho e depois arqueia os lábios num sorriso contemplativo enquanto confere o resultado. A turma entra no carro pra ir pra balada, pro almoço, pra sei lá onde, o motorista ou o carona posiciona o smartphone na horizontal, enquadra todos, todos riem - reparou como a turma ficava séria nas fotos do passado? Depois do futebol de sexta, alguém puxa o celular, se avizinha de outro, o outro está conversando mas faz uma pausa demorada o suficiente para arranjar na cara o sorriso descontraído e breve o suficiente para não interromper significativamente a conversa, e tudo continua como se nada houvesse após a selfie a dois.
As crianças já crescem como produto do meio. Eu tenho seis, sete fotos de quando era moleque, eu já disse. Fotos feitas por mim nessa época, zero. No meu celular, devo ter umas 512 imagens que fiz do meu filho de 5 anos. Mais umas 487 feitas por ele. Estou dirigindo e ouço um clique. Giro a cabeça, vejo de esguelha. "Pai, diga xis". Digo xis.
Não há uma introdução, não há mais preâmbulo, não existe mais "vamos fazer uma foto?". Não vou nem falar de passeios ou viagens, nos quais a culpa dispara flechas de arrependimento a cada esquina, placa ou quarto de hotel não fotografado.
Fotografar antes significava recortar para a posteridade. Para isso, era necessário observação, raciocínio. Era preciso olhar o que estava acontecendo.
A impressão é que hoje fotografamos primeiro, olhamos depois. Obviamente descartamos muito do fotografado, ou então alimentamos a fogueira do efêmero (conhecida como Facebook e Instagram), só pra não parecer tudo justamente tão... descartável. Às vezes, eu deixo de fotografar algum evento que seria óbvio fotografar. É incrível como dá pra prestar atenção e até lembrar, até lembrar depois. Sim, por que se as fotos antes evocavam lembranças, hoje muitas parecem dissociadas de fatos. Na verdade não há grande problema em tudo isso, realmente não há. Eu só me pergunto: o que vamos fazer com tanta foto?