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Alguns zeros e milhões de cafezinhos

Lance Livre por Claudio Gioria

Claudio Gioria | Editor-chefe do TODODIA e escreve aos sábados - 28/07/2017-22:40:39 Atualizado em 28/07/2017-22:40:02

Tenho dificuldade para entender excessos de zero à direita quando se fala em dinheiro.
Sei lá, mas acho que me atrapalho para imaginar o que significa determinado valor. Talvez porque esteja acostumado a pagar conta de R$ 100, R$ 200, conta essa que se ganha o terceiro zero, já é preciso parcelar.
Imagine então quando os zeros vão se proliferando à direita de tal modo que, para conseguir visualizar o número e tentar - só tentar - interpretá-lo, é preciso colocar o ponto a cada três casas, caso contrário você não consegue contar mil, milhão...
A mídia espanhola especula que a multa para quem quiser tirar Messi, já na casa dos 30, do Barcelona é de R$ 1100000000 (viu como sem o ponto você nem consegue entender direito?). Traduzindo, R$ 1,1 bilhão.
Neymar ainda não é um Messi, mas pode até vir a ser e tem cinco anos a menos. Sua multa está na casa dos R$ 817 milhões (poupei os zeros à direita, mas tem um a menos que a multa do Messi).
Você já leu, o PSG está disposto a desembolsar algo por aí graças ao dinheiro que vem do Catar, onde petróleo e gás natural encontraram ambiente propício. E que o Barcelona não reclame dos catarianos, afinal foram eles que, há quatro anos, despejaram alguns caminhões de dinheiro para quebrar a tradição do Barça de não estampar patrocínio em sua tradicional camisa azul-grená.
Toda essa engrenagem extremamente complexa que o futebol virou, repleta de zeros à direita, me fez lembrar de um trecho da biografia de Leônidas da Silva, de André Ribeiro. É óbvio que o patamar é completamente outro, mas nos anos 40 os zeros à direita também já assustavam. A grande diferença é que as coisas eram muito mais simples. Simples a ponto de se mostrar uma mala de dinheiro para seduzir o alvo.
Nada parecido a tudo que cerca um possível negócio do tamanho de Neymar-Barcelona-PSG.
Isso é uma das coisas que me atraem no passado. A simplicidade para se tratar as coisas, o que deixou de existir por necessidade, mas também porque nós gostamos de complicar tudo. Não tinha dinheiro do Catar, fair-play financeiro, multa rescisória, contratos que devem ser lidos por 85 advogados de cada parte. Tinha uma proposta e uma mala de dinheiro, esta uma "garantia visual".
O futebol perdeu esse folclore. Uma pena. Mas também não tinha como não perder.
Após recusar proposta de Fluminense, Madureira (isso mesmo) e Canto do Rio (isso mesmo, também), o Flamengo não resistiu à investida do São Paulo para contratar Leônidas em 1942. Foi a maior transação do futebol brasileiro até então. 200 contos de réis. Ou 200.000.000 de réis. Ribeiro, na biografia, para dar algum parâmetro, lembra que um cafezinho à época custava 200 réis. Leônidas valia um milhão de cafezinhos.
O negócio parecia tão absurdo que, embora com versões diferentes, duas pessoas confirmaram que o São Paulo precisou mostrar uma mala cheia de dinheiro para que Leônidas acreditasse no que estava acontecendo. E quando os jornais noticiaram a venda, muita gente não acreditou, ainda mais porque foi publicada exatamente no dia mentira, 1º de abril.
Leônidas, ídolo no Flamengo, vinha de algumas rusgas no clube e oito meses de prisão por falsificar certificado de dispensa do serviço militar (e ele cumpriu a pena).
Com a venda, dinheiro não seria mais problema para Leônidas, então com 29 anos. Aceitou, mesmo adorando o Rio de Janeiro. Fez sua mala, foi a uma estação e embarcou em uma litorina para São Paulo, como qualquer um de nós faria.
Simples assim.
Lá no Café do Peninha, na Rua Tamoio, o café sai por R$ 3. Neymar vale, neste câmbio, 272 milhões de cafezinhos.
Não consigo imaginar também essa quantidade de cafezinhos. Nem o Leônidas da Silva, já Leônidas da Silva, embarcando em uma litorina sozinho para mudar de clube na maior transação até então do futebol brasileiro, entre dois gigantes, envolvendo o maior jogador da época.
Os números assustam agora, assustavam nos anos 40. Só prefiro a simplicidade dos anos 40.
Curtas
OS 10 MAIS
O diário Marca, da Espanha, listou esta semana os dez maiores negócios da história do futebol em reportagem sobre o possível pagamento de 180 milhões de euros do Real Madrid para ter Mbappé, do Monaco, que seria disparado o maior de todos os tempos. Confira (os valores são em euros):
1 - Pogba (105 milhões)
Juventus-Manchester United - 2016
2 - Cristiano Ronaldo (96 milhões)
Manchester United-Real Madrid - 2009
3 - Bale (91 milhões)
Tottenham-Real Madrid - 2014
4 - Higuain (90 milhões)
Napoli-Juventus - 2016
5 - Neymar (85,4 milhões)
Santos-Barcelona - 2013
6 - Lukaku (85 milhões)
Everton-Manchester United - 2017
7 - Luis Suárez (81 milhões)
Liverpool-Barcelona - 2014
8 - Morata (80 milhões)
Real Madrid-Chelsea - 2017
9 - Di Maria (75 milhões)
Real Madrid-Manchester United - 2014
10 - Zidane (72 milhões)
Juventus-Real Madrid - 2001
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