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Claudião se rende à febre

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 28/06/2017-23:35:46 Atualizado em 28/06/2017-23:43:06

O Claudião aqui do jornal é um cara prático. Se alguém levanta e conta um absurdo, uma coisa quase sobrenatural tipo "Claudião, acredita que minha mãe sabe exatamente que horas são sem nem sequer olhar no relógio?", ele rebate com seu alheamento blasé: "E ela usa isso pra quê?"
Claudião é assim, prático. Detesta ficção. Detesta. Editor-chefe daqui, tem 42 anos e só leu os livros de ficção que foi obrigado a ler na escola, tipo Machado de Assis. Se tivesse resumo de vestibular, melhor. Tento empurrar umas coisas pra ele: Claudião, esse livro cê vai gostar, leia que é muito bom.
Claudião dá aquela torcida no nariz, joga a boca pro lado, sua típica cara de nojo do mundo. "É mentira?". É ficção, Claudião. "Mentira, então?" É, mas é que... "Não gosto de mentira", diz, e volta a olhar para a tela do PC.
Pra ele, ler ficção é perder tempo. Mentira, tudo mentira. Claudião é tão prático, mas tão objetivamente prático, que até para a sua maior paixão, o futebol, ele empresta a manta de praticidade, de utilitarismo. Avança madrugadas fazendo planilhas inacreditáveis, simplesmente inacreditáveis - em uma delas, tabulou os autores de gols em todos os clássicos paulistas da história; em outra, tem um levantamento do Messi que nem o próprio Messi deve ter.
Sabe tudo do Rio Branco. Claudião, quem era o lateral esquerdo reserva do Rio Branco em 1991?, pergunto do nada, só pra testar. Claudião franze o cenho por quatro segundos, balbucia um raciocínio. "Era o Lelis", diz, e continua a editar a página de esportes como se nada houvesse. Lateral. Reserva. 1991. Claudião.
O tempo que passa nas planilhas, gorduchinha de Brahma do lado, ele cataloga como informativo. A sua diversão é revestida por informação. Não que você não possa se divertir ao mesmo tempo, diz Claudião. Claro.
Mas o fato, o fato novo mesmo é que o Claudião, esse Claudião prático e implacável, esse Claudião peculiar e blasé se rendeu à maior febre contemporânea. Sim, falo de séries.
Não sei como é por aí, mas aqui na redação a molecada fala o tempo todo de séries. Um repórter vira pro outro, vira pro editor, descreve cenas absurdas, situações improváveis, eu acho que é alguma matéria, pergunto verdade, verdade?, e estão falando de séries.
Mas voltando ao Claudião: ele não gostava de séries (é tudo mentira, lembram?). Assistiu alguma coisa de Revenge (aquela que passava depois do Fantástico), certamente porque a TV ainda estava ligada depois dos gols da rodada e ele precisava de estímulo ao sono. No máximo, vê um filminho vez ou outra ("aí pode porque é diversão e você só perde duas horas"), mas de preferência um filme histórico.
E só. Claudião não lê ficção, mas gosta de ler sobre verdades. Está lendo o livro do filho do Pablo Escobar. João Conrado aqui da redação ouve e entra em ebulição: "Narcos, Claudião, cê precisa assistir Narcos, é demais". A série retrata a trajetória de Pablo Escobar, como todo mundo deve saber.
"Mas ali tem verdade?", pergunta Claudião. "Parece que sim", diz João Conrado. Isso faz cinco dias, seis no máximo.
Claudião devorou 14 episódios de Narcos desde então. Tem chegado com as olheiras mais vincadas que o habitual. "Quatro episódios esta noite, dormi 4h30." Só fala de Narcos. Narcos Narcos Narcos. Quando eu chego ele está com os olhos arregalados, ávidos por compartilhar: "Sabe o que o Pablo Escobar fez? Você acredita que ele construiu.."
André, o chefe de reportagem, fanático por séries, põe os fones de ouvido, dá um soco na mesa, balança a cabeça: "Não acredito que levei Spoiler". Novato no ramo, Claudião desconhece a ética dos spoilers.
Claudião está devorando Narcos por um motivo. Quer saber o que é verdade, o que não é. Está fascinado por informações reais que parecem...mentira. E confidencia: "Sabe o que me irrita? É não saber se tal coisa aconteceu mesmo." Mas ele não deixa essa coisa irritá-lo por muito tempo.
Devora quatro capítulos e corre pro livro do filho do Pablo, confere informação da série com informação do livro. "É verdade, verdade mesmo." É verdade e inacreditável. É quase mentira. Mas não é mentira, então pode, não é perda de tempo, diz ele pra ele mesmo, pra se justificar.
Claudião está mudado. Há coisa de oito meses, comprou seu primeiro celular. Prático, dizia que antes não precisava de celular. A desculpa é que agora tem filho na escola, precisa estar achável. Agora, série. Diz que não mudou, que é o velho Claudião, do mesmo jeitinho de sempre, aquele seu jeitinho quadrado-implacável-inconfundível. Não é. Ontem, deixou escapar: "Não vejo problema e até assistiria a uma série de ficção-ficção".
Celular, série. Claudião está rendendo-se à febre, às coisas mundanas, daqui a pouco vai dizer que não vê problema em diversão por diversão, descompromissada. Quando começar a usar emojis no Facebook, terei certeza: Claudião acabou.