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Me dá um like aí

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 21/06/2017-23:43:08 Atualizado em 21/06/2017-23:57:35

Eu sempre me pergunto: nos tornamos mais idiotas de fato ou sempre foi tudo desse jeito? Não falo de você ou de mim. Grosso modo, me refiro à idiotice da espécie. É, eu e você. Sim, o Facebook.
Acabo de ler uma matéria sobre um sujeito condenado a dois anos de prisão na Argélia por publicar no Facebook uma foto em que segura um bebê do lado de fora da janela de um apartamento, com a legenda: "Mil likes ou eu o largo". A bizarrice parece até coisa da distópica série inglesa Black Mirror. Aliás, há um episódio da produção que trata justamente de redes sociais.
Nesse capítulo, as pessoas são constantemente avaliadas por todo mundo que cruza seu caminho - exatamente todo mundo, do colega de trabalho a alguém que a fechou no trânsito - , e para conseguir acesso a alguns produtos ou serviços, precisam dispor de determinada pontuação. Alugar uma casa no condomínio dos sonhos, por exemplo, exige uma nota mínima de 4,5, numa escala que vai até 5. O resultado é um teatro digno da Sociedade do Espetáculo descrita por Guy Debord, que parece uma espécie de pai intelectual da série.
Mas voltemos à pergunta inicial: sempre fomos tão idiotas ou estamos mais? Não é fácil de responder. Já há estudos sobre. Uma pesquisa da Universidade da Califórnia indicou que likes nas redes sociais ativam a dopamina, aquele mesmo neurotransmissor atiçado por chocolate e sexo. Num estudo com adolescentes, os pesquisadores constataram que os garotos ficaram em êxtase ao serem submetidos às próprias fotos acompanhadas de um bom punhado de likes.
Se bem que parece que constataram o óbvio. Afinal, o que é um like se não o que o próprio nome indica? Um elogio, um endosso, um "gostei, curti". Quem não gosta?
Há quem diga que reconhecimento é uma das aspirações mais rudimentares do homem, desde que supridas suas necessidades básicas (de comida, de proteção contra o frio e dor, de sexo). O que significa que se o sujeito não estiver passando fome, está carente por atenção, por afeto.
Estaria o Facebook, o like, suprindo então uma intrínseca necessidade humana? Alguma coisa acontece no teu coração quando o círculo vermelho apensado ao símbolo do Facebook anuncia: fulano curtiu!? Há uma busca deliberada por likes que beira a insanidade à medida em que molda (e idiotiza) comportamentos, como em Black Mirror?
E, afinal, ficamos mais idiotas ou sempre fomos? Numa de suas crônicas mais confessionais e hilárias, Nelson Rodrigues, um carente assumido como provavelmente nunca houve no mundo meio blasé das letras, comparou escritores, como ele, a pedintes, perambulando por aí com pires e olhares ansiosos. Só que, em vez das moedas dos mendigos, os escritores suplicavam para que elogios pingassem em seus pires.
A cada nova peça que escrevia, Nelson perturbava todos os conhecidos da imprensa para que lessem ou assistissem, e depois pedia a análise, com o espírito trancado de aflição. "E aí, e aí?". Se o outro gostava, o dramaturgo não esperava um só minuto antes de implorar: "Escreve? Você escreve sobre mim no teu jornal?" Às vezes, ele próprio escrevia sobre suas peças e assinava com o nome dos amigos, derramando elogios à própria genialidade sem qualquer parcimônia. Essa crônica foi escrita há uns cinquenta anos, mais ou menos. Não havia sinal de Internet, muito menos de Facebook, mas estava lá toda angústia mortal e ridícula por reconhecimento, exposta sem vergonha e com muito estilo por um escritor brilhante, e nem por isso menos carente.
O que o Facebook propiciou de tão novo então a esse antigo anseio da alma humana? Talvez... a chance de cortar caminho. A sensação é que não é preciso mais algum mérito para o reconhecimento; nenhuma obra, nenhum grande feito esportivo, sequer algum triunfo obtido por sorte, nada nada nada. É a democratização (arghh) do acesso ao reconhecimento. Todos têm direito a sua dose diária. Basta uma foto, um comentário, uma bobagem qualquer. Qualquer. Como se o botão publicar fosse um pires, um eterno pires à espera da moeda alheia, suplicando: me dá um like aí.
Nos tornamos mais idiotas? Não. Mais espertos. Aprendemos a cortar caminho.