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Profissão-identidade

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 08/06/2017-00:24:47 Atualizado em 08/06/2017-00:26:32

No colegial, a faxineira da escola era a mãe de um amigo. Quando esse cara se atracava com outro aluno da classe em alguma daquelas discussões de colegial em que vale tudo pra ofender o outro, o detalhe profissional era lembrado.
- Tua mãe esfrega chão -, disse um outro colega numa dessas ocasiões.
Eu não estudava num colégio de playboys. Era uma escola pública em Hortolândia. Éramos alguns meio pobres, outros meio classe média-baixa, e havia até uma meia dúzia de playboys, é verdade - entre eles não estava o cara que lembrou meu amigo do ofício da mãe dele.
E esse meu amigo pelo jeito já estava acostumado. Não demonstrou indignação, ninguém ficou muito bravo, não houve um debate, ninguém disse "que é que tem esfregar o chão?."
E ninguém também queria esfregar o chão.
Lembrei desse amigo e de sua mãe em virtude de toda revolta provocada pelos estudantes do Rio Grande do Sul que se fantasiaram de coletores de lixo, faxineiras e ambulantes numa festa na qual o objetivo era imaginar o que farão se "nada der certo", ou seja, se não passarem no vestibular. Teve gente que já transformou tudo numa luta de classes, associou as opções dos estudantes à inexorável safadeza inerente a toda burguesia, olhou para a escola como um microcosmo da sociedade no qual o topo da pirâmide pisa na base com o mesmo desprezo de sempre. A questão é que acho que eu e meus amigos meio pobres meio classe média-baixa nos fantasiaríamos das mesmas profissões no colegial, se houvesse uma festa parecida. Acho de verdade. Não é coisa de burguês. Nunca conheci alguém que sonhasse em trabalhar como coletor de lixo, gari, faxineira, ambulante - conheci um cara que queria ser cobrador de busão, no máximo. Na frase acima, originalmente eu escrevi "que sonhasse em ser coletor de lixo, gari...". Ser. Depois troquei o "ser" por "trabalhar como".
Pois é. No meu modo piloto automático, penso que as pessoas "são" garis, jornalistas, médicos, e não que "trabalham como". Você não "trabalha como" jornalista, médico, policial, advogado, doméstica, gari; você "é" essas coisas. Você é a função que desempenha, esse é o recado que as vozes da vida costumam dar. Na escola, em casa, na rua, na TV. "Se não estudar vai varrer chão" é uma frase tão dita por pais que praticamente se iguala à ameaça do homem do saco.
Quando eu ainda estava no ginásio, a diretoria quis botar os moleques pra limpar a escola, lavar banheiro, não lembro por que, acho que era como forma de aprender a cuidar do patrimônio. E tinha pai e mãe que diziam: "meu filho não vai pra escola pra lavar banheiro". Parênteses: pobres, todos pobres, nenhum playboy.
Na festa dos estudantes do Rio Grande do Sul, penso que o mais revelador de tudo é o nome: "se nada der certo". E por quê? Por que é a síntese de um axioma: o de que pra "dar certo", você primeiro tem de passar no vestibular, e depois desempenhar uma profissão socialmente admirada e bem remunerada. Esse axioma não norteia só a vida do andar de cima; antes, molda os anseios de toda uma sociedade. Logo, é natural que a profissão se torne extensão da identidade de um indivíduo, se não a própria essência. Por isso, o desprezo da molecada do Sul (desprezo no sentido de não querer exercer a profissão) soa como uma ofensa tão grave.
Volta e meia leio no Facebook relatos de alguém contando como venceu na vida saindo "de baixo". Essas pessoas, via de regra, acham que "venceram" por que deixaram um ambiente de pobreza e estudaram, se formaram, compraram coisas, adquiriram um status. Logo, se não tivessem conseguido, não teriam vencido? Seriam derrotados? Que eu saiba, o antônimo de vitorioso ainda é esse.
Muitos trabalhadores braçais ostentam orgulho por meio dos filhos que conseguiram formar, transformar em "doutores". Se tivessem seguido a profissão dos genitores, os pais não sentiriam o mesmo orgulho? Cultuamos desde que nos entendemos por gente o caminho da "vitória" associado ao desempenho de uma profissão e depois nos revoltamos com a molecada que diz que não quer ser uma das coisas que não representam essa vitória. É o retrato da nossa hipocrisia.
As pessoas que estão indignadas com a molecada do Sul seriam mais eficientes se, em vez de irradiar sua raiva pela Internet, parassem de perguntar aos próprios filhos de 6 anos o que vão ser quando crescerem - e parassem de continuar perguntando até que a resposta se ajuste a alguma coisa como "médico, engenheiro", etc, etc.
Em vez de ensinar que ser gari e faxineira é bonitinho e que você precisa ser bonzinho com eles, seria mais saudável entender que todas as inclinações e predisposições humanas não cabem num axioma - o de que é preciso passar no vestibular e exercer uma das profissões a cuja menção a maioria das pessoas responde "nossa, que legal". Quem sabe um dia ninguém precise ser educado a ser bonzinho, e a associação entre vitória e derrota e uma profissão não seja tão insana.
Até lá, quem virar faxineira ou atendente de fast food será encarado como derrotado, sem escolha ou doido (no caso de ter outra opção). No clássico filme "Beleza Americana" (1999), lembra o que o personagem do Kevin Spacey escolheu ser quando abandonou sua vida insossa e superficial? Atendente de fast food. Aliás, "ser" não. "Trabalhar como". Ele tinha outras escolhas. Logo, foi tachado de doido.