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Cartola

Lance Livre por Claudio Gioria

Claudio Gioria | Editor-chefe do TODODIA e escreve aos sábados - 30/06/2017-16:36:09 Atualizado em 30/06/2017-23:38:13

Se você, que como eu cresceu aprendendo a torcer para um time brasileiro, se assusta com a avalanche de garotos primeiro torcendo para Barcelona, Real Madrid e Bayern, prepare-se que algo pior está por vir.
Ou melhor, já veio.
Se a profusão de ídolos mundiais e a superexposição de jogos na TV cativaram o pequeno torcedor a primeiro se interessar pelo futebol de fora, depois pelo daqui, agora tudo tende a piorar.
Ou melhor, já piorou.
Era uma dessas quartas-feiras de rodada cheia. Do Brasileirão, porque lá fora está tudo parado.
João Conrado trabalha ali na frente. Já o apresentei aqui. É aquele, fã do Gattuso. Corintiano, anda feliz da vida com futebol. O seu primeiro jogo na arena foi o do título paulista. Pagou caro, mas não se arrepende em centavo algum, e nem teria motivo para isso. Já deve estar beirando as 3 mil horas de Fifa. Resumindo, gosta de futebol.
Mas naquela quarta, o Corinthians não jogava. O Grêmio, único rival que teoricamente lhe interessaria ver jogando atualmente, também não. Mas ele mostrava uma tensão além da conta.
Era o Palmeiras em campo.
Raciocínio lógico: o segundo time do corintiano é aquele que enfrenta o Palmeiras.
Mas isso é coisa do passado meu. Talvez do seu.
De repente, Jão grita gol. Aquele natural, com vontade, sincero. Aquele que vem de dentro, que até assustou pela espontaneidade por não estar o Corinthians em campo. E também não era do Atlético (GO), o rival naquela noite do "suposto rival" do time do Jão.
Gol do Borja, mas o Jão comemorou porque achou que era do Guerra.
O venezuelano era um dos meias que ele escolheu para o seu time do Cartola. Talvez não seja necessária a apresentação, mas Cartola é aquele jogo que virou febre, da Globo, que você escala o seu time rodada a rodada no Brasileirão. Tem mais de 5 milhões de times escalados.
"Mas pelo menos a assistência foi do Róger Guedes", conformou-se Jão, meio que buscando algo para justificar sua comemoração pelo gol... do Palmeiras. Mais uma explicação aos leigos: assistência também faz o jogador pontuar no Cartola.
Anotei algumas frases em dias de jogos aqui na redação: "Putz, levou amarelo", "Alguém aí colocou Henrique Dourado? Vai...", "Guerrero fez dois???? Tirei esse p... na última hora", "Uhhh... quase assistência do Róger Guedes", "Nossa, o Igor Rabelo está fazendo -1,1", "A briga está por 0,1", "Luan deu três chutes a gol (em tom comemorativo)". Frases como essas, aqui, ganham de goleada de coisas mais óbvias como o Flamengo empatou, o Palmeiras virou, gol do Santos.
Alonso, quase ao lado do Jão na redação, é outro sofredor. Mas parece que esse manja mais de Cartola, tanto que investi R$ 20 nele em ligas que valem dinheiro. Essa, aliás, é a justificativa do Alonso, um sãopaulino fã de Rogério Ceni que não tem muitos motivos hoje para se alegrar com futebol. A não ser, é claro, o Cartola, ainda mais porque joga a dinheiro, o que eleva a pressão e, consequentemente, torcida e sofrimento.
Duvida? Pois em um domingo pela manhã, dias atrás, talvez a única TV sintonizada em Vasco x Bahia em Piracicaba tenha sido a da casa do Alonso. Sim, o Cartola de novo. Ele havia escalado Luís Fabiano, em má fase, um gol no ano, mesmo diante de todo o bullying que sofreu na redação, liderado, confesso, por mim. Foi 2 a 1 para o Vasco, e Luís Fabiano fez um (adendo: gol é a maior pontuação do Cartola). Imagino eu aqui o Alonso, em seu sofá, comemorando o gol com a mesma intensidade de alguns daqueles que o mesmo Luis Fabiano fez contra o Corinthians, pelo São Paulo, o time dele.
Jão, voltando ao Jão, este não tem tamanha pressão sobre suas costas no Cartola porque não joga a dinheiro. Mas torce pelos seus comandados para "zoar os trouxas", explica.
Os dois garantem, até com aquele ar de irritação por alguém suspeitar o contrário: quando São Paulo e Corinthians estão em campo, dane-se o Cartola.
Dane-se talvez seja muito forte. Eles protegem seus sentimentos não escalando jogadores que enfrentam seus times do coração.
"Aí é demais. Aí a pessoa é bipolar", justifica Jão.
É... Já pensou sentir algum tipo de felicidade, por menor que seja, ao ver seu time sofrer um gol? Melhor não arriscar.