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André se revolta

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 03/05/2017-23:58:59 Atualizado em 03/05/2017-23:59:46

O André aqui do jornal é palmeirense roxo, verde, branco. Só o ouvi falar palavrão uma vez na vida, durante algum mata-mata em que o Palmeiras empatou ou virou lá pelos acréscimos. A coisa, desabafada num berro apocalíptico que parecia saído de outra garganta, não da do André, é impublicável.
Como palmeirense, André adorava o Felipe Melo. Defendeu sua contratação com unhas, dentes e verbo, mesmo quando todo mundo alertava sobre o perigo de o volante mandar tudo pelos ares durante algum rompante obscuro, na linha do papelão que protagonizou nas quartas de final da Copa de 2010 contra a Holanda. Agora, André não quer mais ver a fuça do sujeito. O motivo não foi o recente soco que Felipe Melo aplicou na cara do adversário na briga no estádio do Peñarol - André até o defendeu depois daquilo. O motivo todo é Jair Bolsonaro.
Por alguma razão enigmática, como a que o fez dar o fatídico pisão em Robben em 2010, o jogador gravou um vídeo nesta semana defendendo "pau nos vagabundos que querem tumultuar o País". Depois, emitiu um sonoro pleonasmo: sou Bolsonaro. Foi demais para o nosso André, bom moço e meio de esquerda. "Depois dessa, pode voltar pra Turquia. Pô, pode fazer qualquer coisa, mas Bolsonaro já é demais."
De repente reparei que, apesar de Bolsonaro aparecer bem colocado há algum tempo em pesquisas de intenção de voto, só conheci pessoalmente um eleitor assumido do sujeito há umas poucas semanas. Parece que a onda #Mito2018 é uma brincadeira efêmera até você dar de cara com a coisa declarada com todas as letras: "Eu vou votar no Bolsonaro". Foi o que me disse o cidadão, cara a cara, semanas atrás. É um velho conhecido. Nunca demonstrou traços de machismo, fascismo, intolerância, nada nada nada. Um sujeito absurdamente normal, que toca sua vida sem quase falar de política; uma companhia agradável, o tipo de cara de quem é fácil gostar e difícil desgostar.
Curioso ao me deparar com o bolsonarista inédito na minha vida, perguntei, sem qualquer preconceito: por que Bolsonaro? Ele disse que era preciso pôr alguém diferente, quem sabe as coisas mudam. Mas ninguém sabe o que o Bolsonaro pensa sobre o Brasil, ele só repete seus chavões, tentei argumentar. Ele citou alguns vídeos em que Bolsonaro havia demonstrado sua firmeza, pontuou que o deputado estava afastado de casos de corrupção, e a coisa, entre algumas cervejas, descambou para um ponto em que o sujeito disse: "Ou no Doria. Voto no Bolsonaro ou no Doria". Passamos a falar da qualidade dos acepipes à mesa.
O sujeito em questão queria uma alternativa. Não era um entusiasta do estilo Bolsonaro, como Felipe Melo. Era aquela coisa: "alguém precisa ser eleito, então vamos tentar um diferente". De preferência, um que pareça "não político": Bolsonaro, Doria, reticências ( e nessas reticências pode colocar quase qualquer coisa). Não brigamos. E o pior: continuo gostando do cidadão. A quem odeia Bolsonaro, um slogan repetido por seus entusiastas, num trocadilho com o nome do deputado, é o melhor caminho neste momento: "é bom JAIR se acostumando". E é mesmo. Você que não acha possível existir tanta gente que vota num sujeito assim, prepare-se para almoços de domingo em família. Se possível, abra mão das facas à mesa. No cafezinho da firma, esqueça a política, prefira futebol (cuidado para não resvalar em Felipe Melo). Para os churrascos, treine sua cara de paisagem. Você vai ouvir muito "Mito 2018".
Quer tentar dissuadi-los? Boa sorte. Estou com você em pensamento, e creio sinceramente que é possível convencer alguns, quiçá muitos. Eu também tentaria, não fosse inapto e preguiçoso. Assim como o André, é bem provável que você não tenha se deparado ainda com eleitores de carne e osso de Bolsonaro, só com avatares raivosinhos que é mais fácil detestar.
Cuidado para não se surpreender demais, não odiar seus amigos, seus parentes, seus amores. Não estamos cercados de fascistas, machistas, homofóbicos, idiotas, paspalhos. Ok, estamos cercados, mas não num nível tão alarmante como costumamos pensar. Quando se trata de eleição, as pessoas simplesmente acham que é preciso escolher entre o que está posto. E alguém que represente uma novidade, fale grosso e bata no peito provoca simpatia natural.
A cada "eu vou votar no Bolsonaro" que você ouvir, pode encarar como um desafio na linha "me apresente algo melhor". Não adianta você dizer pra votar nulo ou branco, as pessoas acham que é preciso escolher alguém simplesmente por que alguém será eleito. E se você apresentar nomes menos piores, e há aos montes, contra cada um será lançado um argumento, ou melhor, uma sensação disfarçada de argumento. Encara? A batalha será dura.
Não adianta. Eleição é uma iminente catástrofe periódica. Nas catástrofes, o verbo não costuma resolver. Mas se você não for ateu como eu, sempre é possível rezar.