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O porteiro e Dostoiévski

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 31/05/2017-23:58:42 Atualizado em 01/06/2017-00:27:49

Faz uns dez anos e eu já tinha bebido demais. Tomava a saideira com um colega de redação num boteco que funcionava em um desses trailers em Campinas. O sol já havia expulsado a madrugada. Falávamos de jornal.
Um sujeito de bigode impecável, cotovelo no balcão, com a cara atenta de quem tinha começado a beber agorinha mesmo, entrou na conversa com uma educação que nem sempre tem lugar em botecos assim. Tinha uns 50 anos, saíra do trabalho havia pouco, bebericava sua cerveja e era leitor assíduo do jornal em que trabalhávamos. Queria saber mais, queria os bastidores das matérias, queria o relato dos fazedores das notícias. Falamos, contamos, bebemos.
Perguntei o que fazia, o sujeito me disse que era porteiro. Não lembro seu nome. A conversa escorregou pra literatura, não me pergunte como, mas escorregou pra literatura. E o homem desandou a discorrer sobre seus autores favoritos.
Citava o autor e na sequência suas grandes obras, como se fossem extensão do sobrenome do escritor, talvez para provar que seu apreço era real, que um porteiro lia sim, lia muito e lia bem:
"Dostoiévski, Crime e Castigo, os Irmãos Karamazov...", dizia, e eu balançava a cabeça afirmativamente, enrubescido pela lembrança do "Crime e Castigo" que havia abandonado pela metade com a desculpa de que as páginas do exemplar que comprei estavam todas caindo.
"Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão, grande livro", asseverava o porteiro, enquanto eu me encolhia à menção do romance mais famoso do mais famoso escritor sul-americano, que também larguei no meio por que estava achando uma chatice. E citou mais, deve ter citado Orwell, Kafka, Joyce, Proust; não estou certo, mas citou; e como o porteiro citou, como citava, meu Deus.
Despedi-me entre admirado e envergonhado, prometi que o procuraria para fazer uma matéria na linha "O Porteiro Leitor". Não o procurei, não fizemos matéria, me senti ridículo depois pela própria ideia. Justo eu, que sempre achei caricata a fé que tanta gente deposita na faculdade, como se fosse uma espécie de antessala da erudição, da cultura, do destacamento social, justo eu havia ficado abismado pelo fato de um porteiro simplesmente ler, ler muito e ler bem; ler humilhantemente muito mais do que eu.
"Mas por que é que é notícia um porteiro que lê?" Não lembro se foi alguém que me alertou da obviedade ou se cheguei à conclusão sozinho. Talvez achasse notícia por que o sujeito fez algo que não se espera que um porteiro faça, ou melhor, que temos certeza que um porteiro não faz. Mas a quantos porteiros indaguei antes (ou depois) seus hábitos de leitura? Nenhum, nenhum, chega de vergonha. Mas, temos pra nós, ou eu ao menos tinha pra mim, que porteiros não leem. Até hoje, quando conto a história, a maioria diz: "serião?" Ninguém me fala: "e daí um porteiro ler muito, ler clássicos? O que é que tem?"
O porteiro leitor pasma todo mundo, é como um bicho exótico num zoológico de semiletrados "do lado de lá". Como se toda a culpa pelo fato de se ler tão pouco no Brasil fosse dos porteiros, dos garis, dos barbeiros, das domésticas que não leem, e não dos jornalistas que largamos obras pela metade por preguiça, não dos advogados, dos médicos, dos professores e do resto todo. Ninguém lê no Brasil e eu botava a culpa toda nos porteiros. E só percebi isso depois de me espantar com o porteiro leitor, que falava de Dostoiévski e García Márquez como quem comenta Lucas Pratto, Jadson e Neymar.
É como quando dizemos que o povo não sabe votar. A culpa é do povo, e no nosso arquétipo dessa coisa abstrata que chamamos povo deve haver só porteiros, garis, diaristas, pedreiros; nunca jornalistas, nem pensar advogados ou médicos, nenhum professor, jamais um doutor de qualquer coisa. O bode expiatório sempre anda por outros pastos, outras profissões, outras classes sociais.
Ah, eu em outra ocasião conheci um porteiro escritor, dessa vez profissionalmente. O sujeito havia escrito - e publicado - um livro, alguma coisa como "Vida de Porteiro". Um porteiro escritor? Materinha, materinha. Eu não disse e "daí um porteiro escrever um livro?", "e daí um médico escrever um livro?", não procurei saber se a obra prestava. Não importava se o livro era bom, se respeitava as regras básicas do português ou de que tratava. Matéria. Era um porteiro escritor, meu Deus do céu.