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Que será, será

Opinião

Lorrayne Saraiva | Escritora - 15/05/2017-23:19:28 Atualizado em 15/05/2017-23:19:26

Antigamente, quando algo me preocupava a ponto de queimar minhas paredes mentais, eu imediatamente corria para o sábio colo de minha avó, Rosa; que com seus oitenta e cinco anos de vida - mal vividos, como ela bem frisava -, me iluminava com conselhos florescentes.
Mal vividos, ela explicava, porque constantemente, em vez de deixar o rio da vida seguir seu fluxo, ela interferia, geralmente de um jeito tolo, em sua rota original. Obviamente, a frustração vinha logo em seguida, pois o destino é a tinta da caneta de Deus.
Garantia de forma pesarosa que, somente naquela idade, chegando aos noventa, entendeu: a vida tem um implacável curso, e que ele é inalterável - seja por quem for - faça chuva ou faça sol, aqui ou no leste europeu, tudo o que tiver que ser será.
Resignou-se quanto aos desígnios da vida apenas naquela alta idade. E debaixo dessa sua filosofia, eu encontrava o alento, e a refrigeração que minha alma, em chamas, precisava. Não interfira, minha filha, ela dizia. Há uma razão para as coisas estarem do jeito de Deus - e não do seu.
Havia vezes em que eu conseguia alcançar seu lema, e em mim uma mágica calmaria se derramava. Mas passei muitos dias - mais do que gostaria de lembrar - batendo a cabeça na parede, desejando alucinadamente que a vida fosse diferente. Enveredava por caminhos inúteis, como o da dúvida; será que cometi o maior erro de minha vida? Será que é culpa minha? Será que um dia, tudo ficará bem? Uma série interminável de "serás", quando na verdade, eu estava, o tempo todo, chovendo no molhado. A verdade é que tanto eu quanto minha avó demoramos muito para compreender que o que está fora de nosso controle não é problema nosso! Que, por isso, não podemos salvar tudo e todos, sempre. Que levar todos os problemas que a vida planta em nosso solo pro lado pessoal é criancice - coisas ruins acontecem com todos, o tempo inteiro.
Então, quando algo me desnorteia, eu tento pensar que não importa para onde o vento sopre, não importa; se meu barco tiver que ver terra, ele verá.
Imagino vovó me vendo agora; seus sulcos vincados debaixo dos olhos, o brilho prateado do cabelo - como se tivesse os lavado com shampoo de Lua - e a linha torta de sua coluna, como um ponto de interrogação, me espiando do alto de uma nuvem. Rindo a cada vez que me desespero pela coisa não ter saído do jeito que eu quero. Menina tola, ela diria, na próxima esquina a vida muda, na próxima maré, uma nova onda de acontecimentos. E eu aqui embaixo, presa na teia de aranha da vida, contemplo minha rotina com olhos baços, quase cegos. Sem saber que, no amanhã, entenderei.
Eis algo inalcançável, impossível, em algumas fases: entender. Quem entende? Quem entende as razões da vida? Da morte? Dos dias chuvosos? Dos que se foram? Ou dos que chegam? Aceitar não é entender, mas entender é aceitar. É ver que somos mesmo feitos de poeira de estrelas e que nossos sonhos não moram apenas em nosso peito, mas no universo.
O que me preocupa hoje estará em minha mente em, digamos, cinco anos? E se estiver, terá assumido outra roupagem? Em minha atual condição, será que saberia dizer quais problemas serão pulverizados em meses, ou em décadas? Ninguém sabe.
Se a vida enrolou, a vida mesmo desenrola. Somente ela sabe desatar seus nós. Pensamos que estamos no controle, mas o controle não existe.
Lembro-me de Doris Day. Vovó em sua última semana de vida ouvia suas músicas sem parar...
E todo dia, a vida continua a andar.
Que será, será.