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O mundo ideal

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 10/05/2017-23:54:36 Atualizado em 11/05/2017-00:00:44

No meu mundo ideal as pessoas fariam concurso público pra ser pai e mãe. Fariam concurso pra poder votar. Não pensei ainda em quem iria elaborar a prova do concurso. Provavelmente eu mesmo.
Percebi que seria um exagero de burocracia, mais fácil era no meu mundo ideal as pessoas todas terem vergonha na cara e ponto. Mas eu não consigo imaginar um mundo assim, sem regras que permitissem capturar bandidos, corruptos, canalhas outros. Um mundo ideal e ponto final é inverossímil demais até pra ficções divagatórias. Todos temos nossas regras pra melhorar um mundo naturalmente imperfeito, como se o defeito fosse condição indispensável à roda da natureza humana. E não é?
Há alguns meses estava brincando com meu filho Miguel (4 anos) de gênio da lâmpada. Ele era o gênio, eu era o cara que achava a lâmpada e tinha direito a três pedidos. Pedi primeiro pra ficar rico, óbvio, e depois emendei, num rompante de pieguice: paz no mundo e que todas as pessoas sejam boas.
Miguel balançou as bolinhas negras nas córneas, o resto do corpo paralisado diante do inexpugnável desafio.
- Mas isso é muito difícil, não dá pra fazer, pede outra coisa - retrucou, enfim.
Aos 4 anos, sei lá como, já se sente a estrutura inexorável do mundo. Aí fiquei pensando se acontecesse mesmo, se todas as pessoas fossem boas, paz no mundo e a coisa toda (às vezes, sou mais infantil que meu filho).
Aí li o "1984", do George Orwell (eu sei, é uma vergonha só ler isso nesta idade). Um dos lemas do Partido totalitário que controlava o Estado era: Guerra é Paz.
Guerra é Paz significava isso mesmo. Na Oceania, um Estado totalitário onde se desenrola a trama, a guerra é permanente, componente indispensável à paz interna (do indivíduo e do Estado). Alguém a odiar e temer (as outras potências mundiais) e outro alguém a amar e temer (o Partido do Grande Irmão) eram receitas infalíveis de manutenção da coisa toda. Se o conceito de paz pode ser relativo (eles elaboraram as regras do concurso), a discussão do significado de bom dispensa mais linhas. Homens-bomba, afinal, não se proclamam arautos da Justiça?
Outro dia, brincamos de novo de gênio da lâmpada. Desta vez, inverti a resposta. Disse primeiro que queria a paz no mundo.
O gênio fez plim plim e resolveu na hora. Eu estava miserável como sempre, mas o mundo irradiado dos oito metros quadrados da sala de casa tinha paz como nunca. Eu não estava sendo sincero, claro. Pediria primeiro pra ficar rico, por via das dúvidas. Eu sou parte do problema, então? Chega. Ficções divagatórias não chegam a lugar algum.
Lula ou Moro?