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O topete de Pedro Henrique

Lance Livre por Claudio Gioria

Claudio Gioria | Editor-chefe do TODODIA e escreve aos sábados - 12/05/2017-22:21:47 Atualizado em 13/05/2017-00:44:25

Existia uma coluna na revista Placar chamada O Homem Mais Irado da Cidade. Era, via de regra, ode ao raiz, ódio ao Nutella.
Hoje, encarno o personagem.
Não vai mudar o preço do dólar, nem diminuir o desemprego muito menos acabar com a corrupção. Nem definir se o Lula vai ser preso ou não. Mas a ira aqui vai para os imbecis que um dia tiveram a brilhante ideia de acabar com o tradicional pôster do campeão, aquela foto que a gente que gosta de futebol guarda para lembrar o time que levou a taça naquele inesquecível jogo decisivo.
Já acabaram com as bandeiras. Já acabaram com a geral. Já acabaram com o estádio dividido meio a meio.
E também acabaram com o pôster do campeão.
Agora temos a foto-lembrança do título. Só falta mandar colocar em alguma caneca ou camiseta. É o pôster Nutella.
Veja as duas fotos ao lado e ignore a competição em questão, a importância de cada uma. Analise apenas a foto.
A primeira, o 11 (como se falava antigamente) do Corinthians antes de decidir e ganhar o título mundial. Foto clássica.
A segunda, os 56 (isso mesmo, eu contei) que de alguma forma devem, ou não, ter contribuído para o título, acho eu.
Desses 56, exatamente metade é jogador. Pelo menos do que dá para ver. Porque o 29º jogador da foto é o Pedro Henrique. Dele, você vai pelo menos lembrar qual era o penteado dele antes da final. É só observar o topete atrás do goleiro Walter. Bingo, é o Pedro Henrique. Em algumas outras fotos é possível ver um olho. Em outras, um olho e meio, no máximo.
Ah... Porque 29 eu não sei, já que o Paulistão só permitia 28 inscritos.
Essa foto-lembrança de 2017 também tem outras curiosidades. As crianças, a maioria em colos de jogadores, nem chegam a ser uma novidade, mas apareceram em bom número desta vez, dez. Tem dois caras esticando a cabeça (desculpe, mas não sei quem é) claramente para não virar algum Pedro Henrique perdido por aí (um deles lembra o cantor Belo, mas acho que não é).
E - essa é uma inovação - o Corinthians conseguiu nem ao menos organizar duas fileiras de jogadores. Não estou nem falando dos tradicionais seis em pé e cinco agachados, foto clássica, como a do Mundial. Afinal, eram 56 (sim, 56!!!).
Tem uma fileira agachada, outros jogadores no meio, com só o Marquinhos Gabriel meio que agachado junto a alguns baixinhos, e uma outra, no fundo, com os mais altos em pé (entre eles, o topete do Pedro Henrique).
Onde estaria Wally?
E olha que o cenário era fantástico para um pôster, com aquela gigantesca bandeira ao fundo. Mas, optaram pela foto-lembrança.
Se o Brasil tem essa tradição de pôster - o que não acontece na Europa, que prefere aquela foto oficial antes do início da temporada -, foi aqui também que estragaram isso com essa mania de todo mundo querer aparecer. Busque os pôsteres de campeão da Copa do Mundo e verá apenas uma porcaria, aquele de 2002, com todos os jogadores. Muito menos ruim é verdade que esse último do Corinthians, mas também uma foto-lembrança.
Daqui a pouco - sinceramente, não sei como algum gênio ainda não pensou nisso - vai ter clube vendendo lugar no pôster do campeão: "Você, torcedor, ao lado de seus ídolos no momento mais importante. Compre o seu lugar no pôster do campeão".
Ora, se todo mundo tira uma casquinha na foto, se aparece papagaio de pirata de tudo quanto é lado, por que não cobrar por isso em um futebol no qual tudo gira em torno de dinheiro?
Sim, estou sendo irônico.
Com mais um título, mais um monte de ilustres desconhecidos passam a ter seus rostos imortalizados para a história, mesmo que ninguém saiba ou se interesse em saber quem é o Belo ali da foto.
E o Pedro Henrique?
Que fique na ponta do pé da próxima vez se não quiser, de novo, ver só o seu topete imortalizado.