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Herzog e os limites do homem

Cultura e Entretenimento

Rodrigo Pereira | Editor do jornal TODODIA e criador do blog: http://cinexistance.blogspot.com.br/ - 19/05/2017-00:02:22 Atualizado em 19/05/2017-00:02:17

Se alguém me pedisse para apontar rapidamente pontos em comum na maior parte das produções de Werner Herzog, eu diria que são os problemas de adaptação que o homem vivencia ao longo de sua existência e seu fascínio pelos limiares, pelos extremos. Da discussão social em "Stroszek" (1977) ao embate natural de "O Homem Urso" (2005). E isso fica claro em seus dois documentários mais recentes, lançados ano passado (e disponíveis no Netflix).
"Visita ao Inferno" é um deles. Nele, o cineasta visita pontos do planeta onde existem vulcões para entender a forma como os nativos convivem com aquele fenômeno natural e como vulcanistas se expõem em nome da ciência ao explorar as crateras. O mais prazeroso em Herzog é seu olhar cirúrgico para histórias extraordinárias. A obra começa com relatos de um nativo do arquipélago Vanuatu sobre o fato dos moradores daquela humilde comunidade considerarem o vulcão como um deus, que respeitam e com o qual buscam conviver em harmonia. As histórias vão desencadeando outras, como hiperlinks, e surgem relatos como o de um homem que foi o único a se recusar a deixar uma ilha que era evacuada por causa de uma erupção, ou de um casal que viajava o mundo para filmar, fotografar e ficar a poucos metros de distância da lava em movimento, até morrerem carbonizados durante uma de suas perigosas mirações. Já na China, uma cratera é ligada a um momento histórico da revolução comunista.
A composição técnica é um capítulo à parte. Imagens de helicóptero e drones captam belíssimas imagens aéreas que apresentam o homem como um ser extremamente vulnerável perante a natureza. O mar vermelho de lava é apresentado com óperas ao fundo, em momentos incidentais, como se a palavra fosse dada à natureza, algo que remete muito a obras mais recentes de Terrence Malick.
Se "Visita ao Inferno" mostra um fenômeno intrigante e extremamente poderoso como a imagem da força da natureza, a tecnologia é hoje um dos símbolos do homem forte. E aí entramos no outro documentário de Herzog: "Eis os Delírios do Mundo Conectado". Em um futuro não muito distante, você gostaria de ser alguém capaz de tuitar seus próprios pensamentos e ter uma casa que te informa onde está cada objeto em seu interior ou ser o morador de um vilarejo remoto que não tem acesso à Internet e outros tipos de tecnologias, onde as pessoas se encontram no final de tarde para tocar músicas e apreciar o entardecer com toda a família? Essas é uma das respostas que você pode se fazer ao ver essa produção.
Nesta obra, ele busca caminhar entre vários extremos que envolvem a Internet e a tecnologia, dos benefícios aos prejuízos. De um lado, os projetos ambiciosos envolvendo robôs, do outro, o tratamento de pessoas que têm a saúde afetada por ondas eletromagnéticas. De um lado, jovens viciados em jogos e vítimas de crimes virtuais, do outro, hakers bem sucedidos que se tornaram colaboradores do governo. De um lado, pessoas participando de um jogo com algoritmos de formações moleculares, simulando ser deuses, de outro, uma empresa pensando em como utilizar Marte como uma "segunda Terra", almejando ser uma simulação ainda mais ampla de um Deus.
Com perguntas como, por exemplo, se no futuro será possível descobrir por meio da tecnologia se alguém está apaixonado por nós, Herzog também pode inspirar uma reflexão sobre o isolamento causado por todo esse processo e as barreiras entre CPUs e a verdadeira emoção humana.
No final das contas, um dos questionamentos é implícito é: de que adianta o homem desejar morar em Marte quando não houver mais condições de vida na Terra se ele não aprendeu ainda a ser ético, moral e sustentável sequer nos meios virtuais ou físicos que hoje habita?