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Temer ouviu plano para interferir na investigação. E ficou quieto

Brasil e Mundo

folhapress brasília | 19/05/2017-00:27:04 Atualizado em 19/05/2017-00:26:54
Isac Nóbrega | PR
TEMER | Ele disse que achou que Joesley "contava vantagem"

A conversa mantida entre o empresário Joesley Batista e o presidente Michel Temer no Palácio do Jaburu revela que o peemedebista tomou conhecimento de um plano para destituir um procurador da República que investigava o grupo empresarial de Batista, mas não reagiu de forma contrária à estratégia.
Também não há informação de que Temer tenha procurado a PGR (Procuradoria-Geral da República) ou outra autoridade de investigação para informar sobre o plano de interferência na operação policial relatado pelo empresário. No trecho que se refere a possível compra de silêncio de Eduardo Cunha, não está claro se se trata disso. O presidente diz que não renunciará ao cargo (leia texto abaixo).
Batista disse ao presidente, no diálogo mantido no mês de março, que estava "tentando trocar o procurador" que estava "atrás" do empresário.
A reportagem apurou que se trata de uma referência a José Anselmo, o coordenador da força-tarefa da Operação Greenfield.
Deflagrada em novembro passado, a Greenfield investiga uma série de supostos desvios em fundos de investimento em conexão com fundos de pensão de servidores públicos federais. A operação tinha como foco uma das empresas do grupo J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista. Na investigação, o procurador conseguiu diversas medidas judiciais contrárias aos interesses dos Batista.
O executivo afirmou a Michel Temer que estava "dando conta" de dois juízes, os quais não identificou nominalmente, e que tinha conseguido colocar um procurador "dentro da força-tarefa" da Greenfield.
O suposto informante é uma referência ao procurador da República Angelo Villela, que foi preso ontem na Operação Patmos, e que entrou nos quadros da força-tarefa da Greenfield no dia 22 de março. Villela, segundo apurou a Greenfield, havia sido "infiltrado" na operação.
"Aqui eu dei conta de um lado, o juiz, dar uma segurada, do outro lado, o juiz substituto, que é um cara que fica.... [inaudível] Tô segurando os dois. Consegui um procurador dentro da força-tarefa, que tá, também tá me dando informação. E lá que eu tô para dar conta de trocar o procurador que tá atrás de mim. Ô, se eu der conta, tem o lado bom e o lado ruim. O lado bom é que dá uma esfriada até o outro chegar e tal. O lado ruim é que se vem um cara com raiva, com não sei o quê...", afirmou Joesley Batista a Temer.
Neste instante do diálogo, o presidente não se manifesta contrariamente ao "plano" de Batista e a conversa derivou para outro assunto.
O presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista também discutiram um "alinhamento" para nomeações das presidências do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e da CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
Em conversa gravada pelo empresário e que integra sua delação junto à Procuradoria-Geral da República, Joesley questiona se ele pode dizer a Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, que conta com o respaldo do presidente para fazer indicações.
"Então, pronto, é esse alinhamento que eu queria ter", disse Joesley, referindo-se a pressionar o ministro da Fazenda para considerar suas sugestões.
E Temer responde: "Pode fazer isso". Temer e Joesley não chegaram a discutir nomes.
O empresário diz apenas que é "importantíssimo ter um presidente do Cade ponta firme" e que a CVM "é outro cargo fundamental".
Em nota, o peemedebista disse que, por na época ser investigado em inquérito, o executivo parecia contar vantagem e, por isso, não podia acreditar que ele teria cooptado um juiz e um procurador.