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Já sofreu o bastante?

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 27/04/2017-00:27:25 Atualizado em 27/04/2017-00:34:05

No meu primeiro emprego em jornal, em 2001, ganhava trezentos conto. Incluído o busão. O piso da categoria era uns oitocentos. Tudo bem, eu estava no segundo ano da faculdade e o importante era trabalhar na área. Não, eu não era estagiário.
Eu era repórter mesmo, fazia tudo o que um jornalista formado faria, se houvesse um jornalista formado. Não havia. Éramos eu e o orelhão que a gente dividia com o cabeleireiro do outro lado da rua. Matéria na rua? A pé. O jornal não tinha telefone, não tinha carro, não tinha câmera fotográfica, não tinha jornalista. Tinha eu. E eu estava no céu. A turma da faculdade jogava as duas sobrancelhas lá no meio da testa, estupefata: você tá trabalhando na área e ainda tá ganhando pra isso?
Meses depois, fui trabalhar em outro jornal por que era mais perto de casa. O salário era menor (duzentos conto), mas eu não gastava com busão e comida e lá ainda tinha telefone. Faliu após três meses. Depois de me oferecer pra trabalhar de graça em muito lugar, consegui meu terceiro emprego em jornal, em 2003, último ano da faculdade. Trezentos conto de novo. Dinheiro do busão à parte. Os caras pagam busão à parte?, a turma me perguntava na faculdade, olhos ainda arregalados; tem vaga, tem vaga?
Depois de uns seis ou oito meses, tive aumento. Quatrocentos conto, mais o busão. Saí pra beber, fiz contas pra ver se dava pra comprar um carro, tracei planos, sonhei. Sonhei com quatrocentos conto. O piso na época? Uns mil. Mas tudo bem, quem liga pro piso, aliás, quem é que ganha o piso? O piso salarial era tipo um teto salarial pra maior parte dos jornalistas. Rale muito, mereça, e um dia você consegue, você está na época de se ferrar, todo mundo dizia, eu dizia.
Já formado, entrei aqui no TODODIA pela primeira vez em 2004, quando os cabelos do Claudião, hoje editor-chefe, ainda cobriam todo o cocuruto. Pela primeira vez ganhei o piso de 5 horas da categoria, uns mil e quarenta conto na época. Saí pra beber, torrei a poupança que eu não tinha, quase consertei o motor do meu Prêmio 86. Mil e quarenta conto. Eu estava no caminho, o céu (ou o piso de sete horas, que era uns R$ 1,6 mil) era o limite. Trabalhei em mais alguns jornais depois disso.
Quando já ganhava o piso de sete horas, a maioria dos colegas ganhava o mesmo. Não a maioria dos colegas da minha idade. A maioria, de todas as idades. Outros colegas perguntavam: verdade que os caras pagam o piso aí no teu jornal?
E quando um repórter sem experiência nenhuma entrava no jornal ganhando o piso e reclamava de alguma coisa, nós, os mais antigos, nos revoltávamos. "Moleque folgado, não sabe o que é sofrer." Eu contava minha história, pra ver se o sujeito enrubescia de vergonha. Eu não era fruto da geração. Pior: era fã da geração do sofrimento - não me pergunte qual é a graça de ser trouxa.
Sofrimento é uma espécie de patrimônio pra jornalista. Jornadas de 12, 13, 21 horas soam charmosas. Nas mesas de bar, rola disputa de patrimônio. "Eu já fiz dez matérias num dia". "Eu já fiz treze". "Eu já fiquei 21 horas no jornal". "Já fiquei vinte e cinco." Receberam hora extra? Todos riem.
Na faculdade, professor já dizia: jornalismo é sacerdócio, gente, tem de amar a coisa. Fomos ensinados que entraríamos num casamento, não numa profissão.
Passar aperto, ganhar menos que o justo, trabalhar sem receber hora extra, sofrer, enfim, parecia não só normal, era necessário. Quando alguém ousava não sofrer na profissão, quando arrumava um emprego tipo nove às cinco numa assessoria de imprensa, a gente apontava o dedo: ih, esse aí gosta da vida boa. Encostadão.
O que a gente queria dizer era: você acha que é especial pra não sofrer? Assim como o sujeito que se mata pra pagar o aluguel reage quando fica sabendo de uma ocupação de terra: quem é você pra ter uma casa? Quanto você sofreu? O problema não é ele não ter uma casa, é o outro cara ter uma tão fácil.
Não sei de onde veio a glamourização do sofrimento. Mas veio e ficou. Não só no jornalismo. Na vida.
Adoramos exemplo de gente que sofreu o diabo pra conseguir o básico, pra depois transformar isso no próprio exemplo de como a coisa deve ser. Força de vontade, resiliência e toda essa presepada. A injustiça é só uma fase até você merecer a sua justiça. Os outros? Deixa sofrer um pouco. As reformas, da Previdência, Trabalhista, bebem nessa fonte. Já sofreu o bastante? Então, por que se aposentar?
Nesta crise, não é raro ouvir, durante uma greve: "Vagabundos. Deveriam deixar quem quer trabalhar pegar o lugar deles".
Lembra que eu disse que ganhava trezentos conto no primeiro emprego, lá em 2001? Chuta quanto era o salário mínimo da época. Cento e oitenta conto. Por mês. Salário mínimo já foi muito mais mínimo que hoje (o piso em jornalismo agora é uns R$ 2,4 mil, ou seja, cresceu umas três vezes, enquanto o salário mínimo cresceu umas cinco vezes e meia). E se surgisse uma proposta pra elevar o mínimo dos atuais R$ 937 pra uns R$ 3 mil, e fosse possível, sabe o que ouviríamos o tempo todo? "Quem é esse povo pra merecer R$ 3 mil?".