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Queime o problema

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 19/04/2017-23:44:34 Atualizado em 19/04/2017-23:48:11

Se tem uma coisa que vende é firmeza. Não importa o conteúdo do que é dito, só a forma. Basta haver convicção e haverá uma legião de seguidores. A turma adora convicção, desconfio até que a turma anseia convicção.
O jogo da baleia azul, que virou destaque nas redes sociais e pauta na imprensa por desafiar os participantes ao suicídio, é o gerador dos novos rochedos declaratórios. O que essa molecada precisa é chinelada, diz um. Falta do que fazer, afirma outro. Lacrou, concorda mais um, todo contente de achar uma explicação simples pro inexplicável.
Na política, nem é preciso gastar muito papel pra exemplificar o sucesso das declarações firmes. Não importa a idiotice que o sujeito diga, apenas que a diga com aquela certeza que só os verdadeiros idiotas ostentam. O que são as declarações do Bolsonaro, afinal? Do Trump? Nadas revestidos de firmeza. Bobajada, mas tanta bobajada convicta que dá até vontade de acreditar.
A coisa não é nova. Num livro dos anos 90, "Sobre a Televisão", o sociólogo francês Pierre Bourdieu fazia duras críticas à imprensa pelo destaque dado ao que ele chamava de "fast thinkers", ou "pensadores de ideias feitas", que ofereciam fórmulas prontas e fáceis pra explicar qualquer coisa, de uma crise internacional a uma onda de criminalidade.
As ideias feitas lembram muito o livro "Farenheit 451", do Ray Bradbury. Publicado em 1953, o romance distópico mostra uma sociedade onde os livros são proibidos. Os bombeiros são os guardiões da paz. Sua função é queimar livros achados em casas subversivas. O protagonista é um bombeiro em crise, atormentado por sua angústia interna e pela comichão: o que é que há nessas páginas? Começa a furtar livros durante os incêndios. O comandante dos bombeiros desconfia. Vai até o subordinado para uma conversa aparentemente franca.
E explica que não há nada nos livros. Nada. Só servem para angustiar as pessoas. Areia movediça. Um empecilho à felicidade.
- Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum - explica o comandante ao bombeiro.
No livro do Ray Bradbury, as pessoas são cheias de certezas, guiam-se por declarações firmes e repetidas à exaustão. Procuram divertir-se o tempo todo, sempre em movimento. A vida é formatada de maneira simples. Simples como as declarações do seu amigo do Facebook que reduz a explicação de suicídio à falta de chineladas, simples como o político favorito de tanta gente.
Resolvamos problemas com frases de efeito e vamos tocar a vida. Pensar sobre uma coisa não vai torná-la mais digerível, afinal. Só vai causar angústia e mais necessidade de explicação.
Como diria o comandante dos bombeiros em "Farenheit 451", "não enfrentem um problema, queimem-no".