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Vida de escritora

Opinião

Lorrayne Saraiva | Escritora - 20/04/2017-23:34:07 Atualizado em 20/04/2017-23:34:05

Encontrei-me às voltas com pensamentos engalfinhados e incertos. E dentro dessa névoa de questionamentos, deparei-me com uma implacável constatação: dia após dia, me vejo cercada por muitas pessoas, todavia, poucas delas possuem, de fato, um corpo físico. É assim a vida de quem cria personagens. E devido ao poderio massivo dessas criações, passo a ver com certo desinteresse meus outros semelhantes de carne e osso - claro que com exceção de meus amigos queridos.
Todos os dias, a rotina me chicoteia. Abro os olhos - que doem pela claridade da cortina esquecida aberta -, piso descalça no chão. Tão logo chego na cozinha, estendo a mão para a lata de café acima da geladeira. Faço, e bebo meu café forte que mancha meus dentes, e estraga potencialmente meu estômago. Não me importo, tudo o que eu almejo é concentração para encontrar a minha gangue imaginária.
Caminho de volta para a sala, ligo o laptop. Enquanto tamborilo os dedos pela mesa, o Windows inicia. Bocejo, o café ainda não fez efeito. Sou tomada por um frisson, uma ansiedade por reencontrar meu povo, meus personagens, meus amigos, minha família.
Assim que o Word abre na tela, eles correm para me abraçar. Ganham vida, me cumprimentam. Reclamam que sentiram saudades. Folheio o bloco de notas que uso para rabiscar possíveis finais, reviravoltas, tragédias; vejo os nomes e vidas que criei, maravilho-me com os problemas, e soluções que arranjei. Sinto que ao escrever essas estórias, brinco de Deus.
Há dias em que meus personagens e eu passamos juntos muitas horas. Outras vezes, nos vemos por apenas trinta minutos. E há também os dias sombrios em que não nos encontramos.
Separados em mundos diferentes, porém unidos em uma cabeça só, vamos vivendo o que parece ser várias vidas. Rachel, Adonai, Althea, Andrea, Francine, Lucien, Lavínia, Manfred, Sebastian, Malakai, Sarinah, Theo... dentre outros, são os que estão sempre comigo. Eu levo essas pessoas incorpóreas para onde quer que eu vá, e dentro de mim eles vivem, amam, lutam, esperam, sofrem, sorriem, morrem. Eles são quem eu sou, o que vivi, e o que ainda viverei.
Nas linhas que escrevi, no destino que escolhi para cada um deles, está a esperança de uma vida idílica, porém real. Meus personagens são quem fui ontem, e quem serei amanhã. Eles me julgam, me enervam, me pacificam, me transformam. Em meus enredos, eu descubro a chave para abrir o cadeado dos meus próprios problemas.
Vista de fora, a solidão da profissão engole-me como a escuridão do fundo do oceano. Mas só eu sei, quantos posso ser.