OK
Close

Não faz sentido

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 13/04/2017-00:03:23 Atualizado em 13/04/2017-00:23:23

Um sujeito foi preso acusado de bater na mulher e na filha de 11 meses com um cabo de vassoura em Santa Bárbara d'Oeste. Esta semana. O cabo da vassoura partiu-se ao meio. A delegada arbitrou fiança de R$ 1 mil. Loucura dela? Pior que não.
A lei diz que o delegado pode (pode, mas não precisa) arbitrar fiança em crimes cuja pena máxima não seja superior a quatro anos - o caso em questão foi enquadrado como lesão corporal, que tem pena máxima de um ano. Sorte da história é que o cidadão não tinha dinheiro para pagar a fiança.
Algumas semanas atrás, outro sujeito foi pego com um documento falsificado. Havia comprado um veículo de um homem e o carro estava no nome de uma terceira pessoa. Para agilizar a "transferência", falsificaram o documento do veículo e colocaram lá o nome do comprador. Cadeia. Falsificação de documento público é crime com pena máxima de seis anos, ou seja, sem fiança na delegacia. Um cara bateu com uma vassoura na mulher e na filha, o outro falsificou um documento. Um teve direito a fiança, o outro não.
Já parou pra pensar por que tanta coisa não faz sentido? Leis existem pra ser cumpridas ou pra promover justiça?
A vida muito me lembra os livros de Kafka, em especial "O Castelo". Quando K., o protagonista, chega a uma aldeia contratado para um serviço que ele jamais vai desempenhar, se depara com um emaranhado de situações absurdas sustentado por uma rede de autoridades inacessíveis e um povo crente. E tudo que ele consegue fazer é tentar se adaptar ao que não é capaz sequer de compreender. K. até tenta acesso à autoridade, mas o faz pelos caminhos de uma sociedade enlouquecida por regras obscuras.
É a vida, alguém disse a K. - em palavras não tão singelas.
É a vida. Provavelmente guerras fazem parte desta vida. E no dia em que Donald Trump lançou os mísseis na Síria, surgiu tímida a informação de que nove civis teriam morrido, entre eles quatro crianças. A fonte era uma agência estatal síria.
Talvez por falta de possibilidade de ir mais a fundo, talvez por preguiça, talvez por que não chamou muito a atenção (aposto nesta hipótese), o assunto morreu na imprensa. Não encontrei mais nada sobre aqueles nove mortos, aquelas quatro crianças, possíveis vítimas de um ataque que foi retaliação a...outro ataque que matou crianças. A regra parece ser: pode matar, mas não com armas químicas.
Já é esperado que haja mortos, e desde que não sejam muitos, e desde que não saibamos de detalhes cruéis, e desde que não vejamos fotos, por favor, tudo faz parte da vida.
Por todo lado a coisa toda parece tão desprovida de sentido que só resta aceitar. Guerras, mortes? Lamentável, mas inevitável. Leis injustas? Difícil mudar. Uma vida corrida em busca de algo que não deveria ser conquista, mas direito? Ora, ora, essa é a própria essência da vida, a eterna luta.
É como se estivéssemos todos perdidos na aldeia de K. E o pior: um monte de gente vê sentido onde não há.