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Brexit: apenas o início

Opinião

José Maria de Souza Júnior | Professor de Relações Internacionais da Unità Faculdade - 07/04/2017-22:03:52 Atualizado em 07/04/2017-22:18:18

Depois de nove meses do referendo que aprovou a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, o país formalmente acionou o artigo 50 do Tratado de Lisboa (de 2007) que libera sua retirada do Bloco de Integração. Ironicamente, tal fato se dá simultaneamente às comemorações de 60 anos da assinatura do Tratado de Roma (1957), documento que iniciou a Comunidade Econômica Europeia, predecessora da União Europeia, tendo passado a ter esse nome na década de 1990.
O furor sobre o acionamento do artigo desperta curiosidade, pois diversos atores estão agindo como se não soubessem que isso ia acontecer. Uma vez o referendo feito, o parlamento o tendo aprovado e a primeira ministra Theresa May tendo reiterado sua posição favorável ao Brexit e até tentado adiantar o processo, é mais do que natural que ele tenha tido seu início na prática.
Há de se lembrar que os acordos iniciados ainda na década de 1950 com a Comunidade Econômica do Carvão e do Aço (CECA) eram um arranjo que visava à manutenção da paz na Europa, que vinha de um contexto bastante delicado após as duas Guerras Mundiais. A Grã-Bretanha passa a fazer parte da Comunidade Europeia na década de 1970, porém teve papel fundamental na questão central da região que era, justamente, a consecução da paz. Neste sentido, o papel britânico no arranjo europeu tem sido fundamental desde então, tanto como sendo o principal atuante na segurança continental (arcando com os custos de segurança militar), quanto sendo elemento de equilíbrio entre França e Alemanha, os dois atores centrais do processo.
Por outro lado, a mesma Grã Bretanha tem um papel histórico de aproximação e distanciamento da Europa continental dependendo do contexto e de suas necessidades e percepções "pessoais" como Estado. Ou seja, O Brexit não é, necessariamente, uma novidade.
Sendo assim, o processo iniciado agora é mais dúvida do que certeza. É necessário prestar atenção aos termos de saída negociados ao longo de, no mínimo, dois anos (essas são as previsões mais otimistas, mas há quem diga que o processo todo chegue a cinco anos) e o que a saída do país vai implicar na prática tanto para a UE quanto para a Grã-Bretanha. Os cenários são diversos e rearranjos serão necessários. Perguntas que não querem calar dizem respeito aos termos de comércio entre os dois lados, que podem deixar de exercer a livre circulação de bens, a questão de um referendo de independência da Escócia, que precisa de aprovação no Parlamento Inglês, e o próprio grau de distanciamento que o Brexit manterá entre os dois atores envolvidos.
O fenômeno político em perspectiva não tem precedentes e vai inaugurar um amplo espaço de cálculo político nos países da Europa, tanto dentro quanto fora da União Europeia. Contudo, há de se esperar para saber o que o Brexit será na prática, considerando que dentre as alternativas para um membro da UE deixar de sê-lo, a saída voluntária de um membro é o menos doloroso deles.