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Nunca mais vou jogar na loteria

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 05/04/2017-23:23:15 Atualizado em 06/04/2017-00:32:54

Nunca mais vou jogar na loteria. É o que prometo toda semana, é o que toda semana descumpro. Joguei, pois, novamente: Lotomania, Quina e Mega-Sena. Nas duas primeiras, já era. Nenhum número na Quina, nove na Lotomania (o que significa o mesmo que nada).
Há ainda uma esperança, você sabe qual é: agora são 16h14, e o resultado da Mega-Sena sai lá pelas 21h de hoje (ontem, pra você). Vou quase terminar este texto daqui a pouco, mas só escreverei o último parágrafo após conferir o resultado. Talvez, oremos, esta seja minha última coluna.
Nas próximas cinco horas, deleite e expectativa. Ou melhor, expectativa de deleite - o que pode ser igualmente aprazível, como atesta aquele ditado que diz que o melhor da festa é esperar por ela.
Conheço bem isso, você conhece bem, até o meu chefe Claudião, todo quarentão-quadradão-metódico-pé-no-chão-porém-apostador-da-Mega-que-acha-que-quando-um-pombo-caga-em-você-é-sinal-de-sorte, conhece bem essa profusão de sensações que, horas antes do resultado, nos inunda, nos destrava a língua em planos e previsões enquanto trava o semblante no ponto exato da cara de tonto, como se estivéssemos, todos nós, iluminados, predestinados ao improvável - mas não impossível, como alguém sempre vai lembrar.
Chega a hora de conferir o resultado, e toda elevação mental esfacela-se nos dois segundos necessários para você checar que não acertou o primeiro número (um segundo para conferir, outro para digerir e dar adeus à ex-futura vida de milionário). Os ombros desabam de vez quando você vê que não acertou também o segundo número, e observa a Quina passar ao largo (adeus, dívidas pagas).
Aí a coisa já perde o aspecto de sonho; vira pragmatismo. "Qualquer coisa é melhor que nada", você repete enquanto confere o terceiro número com um pensamento alentador (a quadra tá bom, a quadra tá bom). Sem quadra. Frustração, talvez uma fugaz depressão. Nada nada nada.
Encare. Você não ganhou, eu não ganhei, o Claudião, mesmo com a cagada do pombo da sorte, não ganhou, a dona Lúcia não ganhou, e tampouco vamos ganhar. Jamais. Mesmo que alguém recite aquele conhecido incentivo: "alguém tem de ganhar" (nem sempre, não à toa o prêmio acumula tanto). E assim leva-se uma vida em franca e falsa expectativa.
Faça as contas. Mega-Sena, um jogo simples, de seis números: uma chance em 50 milhões. Ok, ok, é a Mega, R$ 30 milhões, não seja tão guloso.
E a Quina? Uma chance em 24 milhões. Vamos de Lotomania então, parece tão mais fácil, 50 números para escolher, apenas 20 para acertar. Realmente, bem mais fácil que Quina e Mega, isso ninguém pode negar: uma chance em 11 milhões.
As probabilidades, cruas assim, numéricas assim, jogam na tua cara não só a improbabilidade de você ganhar; ainda te envergonham por desvendar o otário sonhador que há em você. Não é só pelo dinheiro (ninharia?), mas pelas expectativas, pelas sinceras esperanças juvenis cultivadas ante uma chance tão remota que mal se pode chamar de chance. Ah, mas meus três jogos custaram só R$ 6,50. Os racionais dirão: são R$ 312 por ano jogados no lixo, R$ 3.120 a cada dez anos, e por aí vaí.
É sob o jugo dessa racionalidade, que semanalmente me assalta, que prometo não jogar mais. Não faz sentido jogar. É pouco dinheiro, mas pouco dinheiro inevitavelmente jogado fora.
Eu conseguiria não jogar, conseguiria. Se a lotérica ao menos não ficasse dentro do mercado, atrás dos caixas em cujas esteiras ponho cabisbaixo minhas Bavarias, meu muçarela, meu Miojo (Eisenbahn e Gorgonzola agora, só depois de ganhar na loteria). Se ficasse em outro lugar, eu não jogaria. Mas ali, nesse ambiente em que a realidade crua é refletida na tua cara pela tela do caixa, que você acompanha com atenção pra ver se o preço vai bater com tuas contas que fez de cabeça enquanto se policiava empurrando o carrinho, ali aquela lotérica é um oásis de esperança.
É dinheiro jogado fora mesmo? E aquela expectativa, e a esperança do deleite? E o fugaz frio na barriga ao conferir os números? E os planos, planos e planos em estado de prazeroso entorpecimento? Só R$ 6,50? Até que não foi caro comprar emoções.
O bilhete da loteria, afinal, se de nada vale como passaporte para outra vida, é ao menos um objeto de consumo emocional. E relativamente barato. Não é só a chance de ficar milionário. Compra-se esperança, frio na barriga, distração da vida, compra-se debate no local de trabalho ("e você, ficaria hoje até o fim do expediente?"). Tudo isso por R$ 3,50, se você fizer um jogo simples.
Pautar as expectativas pela possibilidade de intervenção do acaso, afinal, pode ser emocionante.
No conto "A Loteria em Babilônia", o escritor argentino Jorge Luis Borges cria, inacreditavelmente em apenas oito páginas, um universo onde a loteria adquire status de principal motor de uma sociedade. Primeiro, os organizadores percebem que não basta incitar apenas a esperança e premiar os ganhadores, mas também punir os perdedores com multas, para que tudo fique mais emocionante. Como ninguém paga as multas, as prisões surgem como alternativa de castigo. Logo, o povo se revolta para que os pobres também tenham acesso aos sorteios e, consequentemente, aos deleites da esperança e do terror. Passa a ser a loteria, então, universal, gratuita e obrigatória. Os prêmios e as punições são tão variados quanto a imaginação humana. Borges pinta, assim, uma sociedade saturada do acaso, onde já não é possível mais distinguir a própria aleatoriedade autêntica daquela produzida pela loteria.
Ainda jogamos só pela esperança, mas nos nossos deleites de expectativa não se infiltra também o medo como parte do improvável prêmio, assim como na ficção de Borges? "Se eu ganhar, conto pra alguém? Mas vou ser sequestrado, meu Deus."
A culpa é companheira inseparável nos devaneios. "Deixo alguma coisa pros colegas de trabalho? Ou só pra família?"
Você não vai ganhar. Nem eu. Não faz sentido jogar. Não é racional. Mas nunca deixaremos de comprar expectativas enquanto houver quem as venda. Não jogarei nunca mais. Até ir de novo ao mercado. 20h34. Não acertei nenhum número. PS: eu não contaria se ganhasse.