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Um!?!?!?

Lance Livre por Claudio Gioria

Claudio Gioria | Editor-chefe do TODODIA e escreve aos sábados - 07/04/2017-23:32:46 Atualizado em 07/04/2017-23:35:38

- Sim, um - confirmou George.
George é o editor-executivo aqui do jornal. Tem 35 anos. Nasceu em Recife e morou boa parte da vida em Hortolândia. Sonha em ganhar a vida escrevendo conto.
Esse é o George.
Não é fanático, mas gosta de futebol, lembra de muita coisa.
Por isso, a resposta - "um" - surpreendeu.
George já teve quase 13 mil dias de vida e em apenas um deles havia dedicado duas horas para ir a um estádio ver um jogo de futebol. Duas horas não, porque foi embora antes do jogo acabar, provavelmente devido à qualidade (ele não lembra). Era uma partida do SEV-Hortolândia contra o Monte Azul. Sentou, sabe-se lá o porquê (ele não lembra), atrás de um dos gols do Tico Breda, o pior lugar para ver jogo. Não lembra o resultado, mas sabe que foi atraído para a arquibancada por alguma boca livre.
A revelação do único jogo até então da vida do George surgiu em meio àqueles debates noturnos aqui na redação. Aqueles que geralmente ele mesmo, o George, começa. Me fez lembrar do dia em que fui a três jogos no mesmo dia, todos do Paulistão.
Não lembrava mais o ano, mas foi em 1999, chequei depois. Um domingo que a tabela me era favorável. Pela manhã, às 11h, Rio Branco x Portuguesa no Décio Vitta. Fim de jogo, deu tempo para comer tranquilo uma macarronada com meus pais (não sei o porquê, mas lembro que comi macarrão), uma pequena relaxada e pista rumo a Mogi Mirim, onde o time da casa enfrentaria o União Barbarense, às 16h.
Como o George, saí um pouco antes de acabar o duelo em Mogi, mas por uma causa mais nobre. Às 18h30, em Limeira, tinha Internacional x São Paulo. Confesso que pisei um pouquinho naquela pista ruim que liga Mogi a Limeira, mão dupla, cheia de caminhão. O suficiente para dar tempo de chegar antes de a bola rolar e ver o Rogério Ceni pela primeira vez marcando dois gols em um jogo. A aventura que começou por volta das 10h em Americana terminou quase 12 horas depois.
No mês passado, o George simplesmente dobrou suas horas de arquibancada. Decidiu que iria a um jogo com o João Conrado, dez anos mais novo, também editor aqui, esse mais fanático por futebol, até então com seis jogos no currículo (um no Décio Vitta e cinco no Morenão, em Mato Grosso do Sul) e 2.900 horas jogando Fifa 2014 (para entender melhor, o equivalente a 120 dias seguidos nos últimos três anos).
Rio Branco x Matonense era o jogo. Ingresso antecipado a R$ 2 mais um quilo de alimento. Não foi por falta de aviso que o Jão deixou para comprar no último dia. Perdeu hora. Resultado: em plena crise, cada um pagou vintão. Ele e George.
Se eu tivesse de apostar antes, perderia: George não gastaria vintão para ver um jogo. A matemática dele para dinheiro é quantas Eisenbahn dá para comprar (ou Cristal, em momentos mais delicados). Difícil imaginar o George abrindo mão de quatro Eisenbahn para assistir a um jogo no estádio. Como disse, perderia a aposta, porque ele pagou.
Eles não torcem para o Rio Branco. Mas também não foram para o estádio torcer para a Matonense. Foram simplesmente assistir a um jogo, mesmo sabendo que era um jogo de Série A-3. É importante avisar isso, que é Série A-3, porque essa turma que só vê futebol na TV ou no videogame é capaz de ir para o estádio esperando dribles de Neymar, arrancadas de Messi e finalizações de Cristiano Ronaldo.
Não tem nada disso na Série A-3, mas se me perguntarem se eu troco a arquibancada em um jogo desse para ficar em casa vendo o Barcelona ou para jogar um Fifa (perdi a única vez que joguei, na morte súbita, justamente para o George), a resposta não demoraria dois segundos.
Não existe nada melhor no futebol do que a arquibancada.
Ah... O George gostou. Comentou até taticamente o que viu e deve até ter arrumado algum personagem para a sua próxima coluna (quer melhor lugar que uma arquibancada de estádio para arrumar personagens?). Até não duvido que ele volte a trocar quatro Eisenbahn por um ingresso.
Clubes do interior e federação não precisam se preocupar comigo. Porque vou ao estádio desde sempre. Nada do que cerca uma partida de futebol me atraía nem me atrairá mais do que a partida de futebol em si.
Clubes do interior e federação precisam se preocupar em encontrar os Georges e Joões perdidos por aí e buscar formas de mostrar a eles o quanto é legal ver um jogo no estádio. Tenham esses Georges e Joões 25 ou 35 anos, 5 ou 50.
Garanto que vai sobrar muito sofá vazio por aí.