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Paga pau

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 22/03/2017-23:53:25 Atualizado em 22/03/2017-23:54:48

Soou o sinal da última aula. Em segundos, a escola toda estava na rua, mas ninguém foi pra casa. Ia ter briga. Na quinta série, as brigas eram acontecimentos mais esperados que jogos da seleção na Copa - e olha que nesses dias (os da Copa) éramos dispensados mais cedo.
A luta seria entre dois garotos da minha classe, ambos com 11 anos, ambos meio fortinhos pra idade, ambos nunca haviam brigado na escola. Uma luta justa. Não lembro o motivo; de qualquer forma, a razão era o que menos importava.
A escola toda na rua, fichários e cadernos suspensos por mãos agitadas. O primeiro garoto cruzou o portão. Gritos, chistes, sensação de pertencimento. Entregou o material pra alguém segurar e se posicionou nervoso, meio medo, meio empolgação.
O oponente saiu pelo portão, e por um segundo o alarido tornou-se silêncio, logo preenchido pela algazarra da disputa por uma posição melhor para ver o centro da roda, para ver a briga.
Cem, 120 moleques e meninas, talvez 150 apinhavam-se na rua. Naquela confusão, foi difícil entender o que acontecia. Alguém bateu? Começou a briga? Por que ele não tirou a mochila das costas? Não estava tendo briga. O quê? Ele tá indo embora? O garoto fugiu.
De cabeça baixa, mochila nas costas, o menino, o segundo a cruzar o portão, abandonou a expectativa de 100, 120, 150 moleques e fugiu sem pressa, caminhando. Entre a multidão, elevou-se um sentimento de frustração e indignação. Era como se o estádio estivesse cheio, e de repente o alto-falante anunciasse que não vai ter jogo por que um time foi pra casa. E o pior: foi andando, sem pressa.
Em meio à estupefação, alguém gritou:
- Paaaaga paaau.
Eu não sei por que "pagar pau" hoje significa admirar, puxar saco, mas na minha época, no meu bairro e na minha escola, pagar pau significava fazer o que o garoto da mochila estava fazendo - fugir da briga.
Um riu, dois riram, muitos riram, e, sem combinação alguma, o coro surgiu espontâneo, quase sincronizado e contínuo:
- Paaaaga pau, paaaaga pau, paaaga pau.
O garoto da mochila manteve a cabeça baixa e a passada lenta, mas não vacilante; era como se a lerdeza no caminhar pudesse escondê-lo da multidão, que o seguia a poucos passos.
Voltar e brigar não passava por sua cabeça, acho que nada passava por sua cabeça a não ser chegar em sua casa, que ficava na mesma rua da escola. O coro engrossou, tornou-se denso, mais ritmado e mais alto. Cem, 120, 150 moleques e meninas:
- Paaaga pau, paaaaga pau, paaaga pau!.
O sol já abandonava o horizonte no fim da tarde. Mulheres saíram de suas casas com aventais nas cinturas e interrogações nas sobrancelhas, velhos esgueiraram-se curiosos pelas portas. A turba manteve-se implacável, alheia, irreverente, focada.
- Paaaaga pau, paaaaaga pau, paaaaga pau.
A sintonia das vozes e os berros a plenos pulmões com endereço comum substituíram a indignação e a frustração por outro algo: um espetáculo possível para substituir o espetáculo da luta cancelada.
As nossas caras de crianças não negavam, pelo contrário, estampavam satisfação, alegria, união. Todos unidos contra o paga pau, num uníssono restaurador durante a perseguição em câmera lenta. Alguma coisa, afinal, precisava compensar a briga anulada.
A casa do garoto da mochila não ficava longe. Entre as muitas pessoas que saíram à rua alertadas pelos gritos, surgiu um homem que olhava o espetáculo incrédulo, indignado. Postou-se no meio da rua. Era o pai do paga pau.
A multidão mirim talvez tenha hesitado um segundo, mas não mais que um segundo. Unidos, os 100, 120, 150 moleques e meninas permaneceram implacáveis, alheios, irreverentes na voz de toda uma escola:
- Paaaga pau, paaaaga pau, paaaaga pau.
O garoto manteve o andar ritmado, vagaroso, imperturbável na direção da casa e do pai. Naquela época, mães e pais diziam: se apanhar na rua, leva mais porrada em casa. Imagine o que diriam a quem foge da briga? Iria o pai exortar o menino da mochila a girar os calcanhares e partir pra briga, honrar o que tinha no meio das pernas? Expectativa entre a massa.
Quando o garoto alcançou o pai, tudo o que o homem fez foi virar as costas ao bando, estender o braço e pousá-lo no ombro do menino. Juntos, caminharam os últimos metros até a casa, ainda sob a repetição invariável, mas já arrefecida, do insulto:
- Paaga pau, paaga pau...
A turba dissipou-se. Não houve brigas, reprimendas ou consequências, e o assunto morreu em alguns dias.
Lembrei deste episódio da minha infância semana passada, enquanto lia "Por quem os Sinos Dobram", um dos livros mais famosos de Ernest Hemingway.
No melhor trecho do romance, uma mulher narra o momento em que comunistas tomam uma cidade até então controlada por fascistas durante a Guerra Civil Espanhola, nos anos 30. Os comunistas não eram militares. Eram pessoas comuns, assim como os "fascistas" que eles haviam acabado de apear do poder e que precisavam ser castigados. O que se encontra nessas páginas é um relato tenso, belo e rude de como a maldade se infiltra nas massas, quase como um líder onde não há liderança. Mais ou menos, em escala muito menor, é verdade, como fizemos com o garoto da mochila.
Mais ou menos como acontece com regularidade no Facebook e na vida real, em qualquer linchamento virtual ou ao vivo.
Infelizmente, nem sempre é uma escola, nem sempre são crianças de 11 anos, e quase nunca há um pai compreensivo como o pai do menino da mochila.