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João e o peladão

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 03/03/2017-00:14:02 Atualizado em 03/03/2017-00:54:10

O João Conrado aqui do jornal foi a um sarau erótico no sábado de Carnaval. Fantasiou-se de Eleven (a moça paranormal da série "Stranger Things") para a folia de rua em Piracicaba e aproveitou o mesmo vestido rosa para dar uma esticada no sarau mais à noitinha. Jão é esquerda-vanguarda-simpatizante-de-qualquer-causa-que-cause-antipatia. Em outras palavras, um bom rapaz.
A roupa do João Conrado não provocou qualquer problema, não despertou nenhum alvoroço. Recebeu, quando muito, uns cumprimentos pela originalidade, jamais pela ousadia.
Havia no sarau um sujeito sem roupa alguma. Minto: usava meias e tênis. Nu, de meias e tênis. Zanzou pelo espaço como se nada houvesse, tratou de assuntos diversos, encostava num canto e puxava conversa com um cidadão do tipo camisa-por-dentro-das-calças, e saltava depois para outra rodinha para tratar da vida, do tempo, da arte, jamais da nudez.
Ninguém repreendia o pelado, ninguém rechaçava sua nudez. Absolutamente ninguém. Era uma nudez absurdamente normal.
O pelado estava livre, feliz como pinto no lixo, de tênis e meias. O único pelado do espaço. Nessa festa vestidos pagavam R$ 15 pra entrar, fantasiados (como o João), R$10, pelados, nada; fato é que o pelado entrou vestido e se despiu lá dentro, o que leva a crer que tirou as roupas por ideologia, não por economia, já que o pagamento era na entrada.
E preenchia cada espaço do sarau com sua nudez de meias onipresente. Ninguém se chocou pela nudez, ninguém. Era esperado, talvez até desejado, que alguém desempenhasse o papel do pelado diante de caras e bocas dissimuladas de fastio.
Houve um tempo em que as pessoas se chocavam sem qualquer cerimônia. Tudo era motivo de choque - uma calça até as canelas, um penteado diferente, um adereço inusitado. Hoje em dia, chocar-se é o supremo indicador de quadradice e do desrespeito com "o outro". A turma mais nova, a turma de bons rapazes como o João Conrado, é preparada para jamais se chocar.
Mas era um pelado chato à beça, conta-me o Jão. Minto ao dizer que usava apenas tênis e meia. Vestia também um canudo - na boca. E minto ao dizer que estava feliz como pinto no lixo. Algo lhe faltava, algo faltava ao pelado.
Ele usava o canudo não para fins libidinosos, mas com uma intenção mais prosaica: bebericar do copo alheio. Alguém passava com uma bebida e o pelado ia atrás com o canudo pedir um gole (pedir é jeito de dizer, já chegava introduzindo o canudo no copo alheio). A catuaba do nosso Jão não escapou intacta.
O pelado assediou também, que ninguém diga que não assediou. Declarou-se gamado por João Conrado, que, por sorte, estava acompanhado. Jão desconfia que foi mais por chatice que por desejo. Nunca saberemos.
É como se o pelado, frustrado com a falta de choque por sua nudez, a única nudez naquele espaço de suposta vanguarda, quisesse incomodar pela chatice. Como pode ser tão chato?, perguntavam-se todos enquanto o peladão simulava um trenzinho grudando-se às costas de um desavisado que tentava se desvencilhar em franco desespero.
Num espaço em que o choque e o incômodo estavam programados para passar longe, foi o desconforto com a chatice do pelado, não com sua nudez, que marcou o sarau. "Se não fosse tão mala...", resume João Conrado.
O pelado aborreceu, mas ficou também aborrecido. E o motivo foi o João Conrado, o nosso Jão aqui do jornal.
No fim do sarau, Jão, com o vestido rosa, sentou-se tranquilamente como se senta nos fins de festa, e atreveu-se a usar o celular para distrair-se com qualquer coisa (ele precisava distrair-se).
O choque e a revolta tomaram conta do peladão.
"Saaaiiii do seu mundo, rapaz".
João pediu desculpas e guardou o celular, ciente de sua inconveniência.