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Na rua

Opinião

Lorrayne Saraiva | Escritora - 31/03/2017-23:23:55 Atualizado em 31/03/2017-23:23:53

Há uma linha imaginária, um fio de empatia, um elo familiar, entre eu e os mendigos. Eu os vejo, eu os sinto. Eu os vejo, e eu os sinto em todo lugar. Reconheço-me em cada sujeira, cada olhar sem luz que lançam ao mundo. Cada anseio silencioso. Cada dor escondida.
Estou dentro dos mendigos, e acho que essa chama os aquece nas madrugadas geladas. Para eles, todas as horas, são horas da madrugada.
Há um pouco de mim no papelão onde dormem, nos jornais que usam como cobertores, e nas grosseiras bitucas de cigarro entre seus dedos espurcos. Até as lágrimas que lhe pesam na face são poluídas. Sim, estou nessa sujeira também.
As moças passam, equilibradas como circenses, em seus finos saltos, ornamentadas dentro de suas finas vestes; não veem o vivo no chão. Se o notam, tomam por morto. Nessas beldades esculpidas no mais fino trato da perfeição, banhadas pelo brilho da prosperidade financeira e futura, abençoadas pela sociedade, não se nota, não se avista, o menor sinal de mim.
Estou na calçada, com eles. Sou um deles. Os saúdo com meu espírito de cigana, andarilha. E nossa simplicidade se reconhece, se abraça.
Já morei nas ruas. Tenho plena consciência disso, cada vez que sou olhada por um deles. Eles me reconhecem. Eu sorrio, pois sei, no fundo do meu ser, como as calçadas são duras. Eles pensam que eu ainda sinto fome. Não, eu digo. Apenas minha alma viveu esta angúria. Mas os nômades se reconhecem.
Ao meu redor, mãos estendidas me oferecem esmolas. Elas caem no meu colo, nas minhas mãos, e na minha vida. Às vezes, não sei o que fazer com elas. Agradeço, e fico confusa. Mesmo com comida quente no estômago, e um teto sobre minha cabeça, ainda continuo recebendo esmolas. E então, desavisadamente percebo, que eu mesma fui a provedora das mesmas, a cada vez que me contentava com migalhas pisadas por terceiros.
Estou sempre nas ruas, como uma sombra, me infiltro entre os mendigos. Visto roupas roídas por ratos, e divido o mesmo cheiro de lixeira. Há um momento em que não poderão me distinguir do bando. Identifico-me.
Estou na coceira, na vontade de gritar e na chuva que os lava. No sol que os protege. Na sombra que os alivia. Moro em cada lamentação. Pertenço, de alguma forma, a essa vida sem paredes. Não há relógios, prazos, ternos, e dignidade. Há apenas uma chance para sobreviver, todos os dias. E a cada dia ganho, é um dia que se perde para sempre na escuridão do medo.
Gangrena, suor, ferida, verme, imundice, e frio. Quando a noite cai, rezo para que tenhamos onde dormir. Nada tenho da realeza, sou como eles. Estou perdida como eles. Meus passos se espalham por aí, atrás da minha casa. Minha casa muda de lugar. De corpo. De sentido. Penso em Lucano, e no poema de Farsália: os mortos insepultos têm o céu como mortalha. Olho para cima, vejo minha mortalha acima de mim, e por um momento, me sinto imortal.