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O fogão do Cabelo

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 30/03/2017-00:11:36 Atualizado em 30/03/2017-00:22:53

Há alguns anos, fomos tomar cerveja lá no apartamento do Cabelo depois de fechar a edição do dia. Cabelo é como chamamos o Rodrigo Pereira, editor de Cidades e crítico de cinema aqui do TODODIA (amanhã tem coluna dele lá na página de Cultura, e se você gosta de cinema, sugiro).
Alguém levou uma peça de mortadela. Claudião, o editor-chefe, louco por mortadela, pediu uma faca ao anfitrião.
- Faca não tem - respondeu Cabelo, pernas cruzadas, cotovelo no joelho, copinho de requeijão cheio de cerveja na mão.
- Não tem faca? - inquietou-se Claudião, boquiaberto, esperando que fosse piada, mas preparando-se pra que fosse verdade.
- Não tem.
- Não tem faca... faca, Cabelo, faca? - Claudião chegou a improvisar a mímica do talher cortante, para ter certeza de que Cabelo não estava confundindo faca com qualquer outra coisa.
- Não tem - respondeu Cabelo, seguro, sem alterar o tom de voz ou o semblante, apesar da estupefação que Claudião transmitia na cara, nos olhos, nos poucos cabelos que já se eriçavam.
- Mas, Cabelo... e pra comer? Como você faz?
- Eu como marmita.
- Mas e o bife, Cabelo, como corta o bife?
- Corto no dente - respondeu Cabelo, rasgando um bife imaginário na boca, como se aquilo, e não a faca, fosse a coisa mais natural durante as refeições.
Claudião entregou-se ao próprio aturdimento, disse qualquer coisa como "você é esquisito mesmo, Cabelo", e alguém fatiou a mortadela com um garfo em pedaços rústicos. Rústicos como o Cabelo?, você vai me perguntar. Bem, pode ser, mas não é só, não é simples assim, o sujeito é rústico e pronto. Não.
Na época desse episódio que acabei de contar, a casa do Cabelo havia evoluído muito em utensílios e móveis. Já havia cadeiras pra quatro ou cinco. Existia uma mesa. Nas primeiras vezes em que fomos lá, havia um banquinho e um caixote, nada mais (e eu quero dizer absolutamente nada a mais). Se estivéssemos em três, um bebia de pé, obrigatoriamente. Cabelo não se incomodava com isso, nunca se incomodou.
Cabelo é crítico de cinema, é músico, passou em filosofia na Unicamp, então... o Cabelo é bicho grilo? Não é, não exatamente.
Como músico, amante das artes e da filosofia e dos copos de requeijão, pode-se dizer que Cabelo tem a alma concentrada em coisas mais elevadas. Facas? Ora, por favor. O que não for estritamente necessário é dispensável.
Não é que o objetivo do Cabelo fosse esse, não é que seja um mão de vaca, não é que vale até economizar em facas para juntar grana, mas claro que ele colheu os frutos. Cabelo deve ser o único sujeito que conheço que comprou um carro à vista antes dos 30. Com o próprio dinheiro. Facas, oras, facas.
Cabelo hoje mora comigo e com o João Conrado, também aqui do jornal, e há algumas facas na gaveta. Lá do apartamento onde vivia, trouxe um fogão na mudança.
E foi com esse fogão, esse da foto aí abaixo, que o nosso Cabelo "quebrou" a Internet ontem. Quer dizer, quebrou ao menos um grupo virtual de compra e venda de usados no Facebook.
Cabelo resolveu pôr à venda uma geladeira que já não usamos mais (em bom estado) e, de quebra, pensou: por que não o fogão?
O fogão estava há coisa de um ano e meio virado pra parede, na área de serviço, sem qualquer tipo de uso que não fosse sustentar caixas velhas. Ao virá-lo para as fotografias, Cabelo talvez nem tenha percebido. Ou talvez o fogão tenha sido sempre assim, acho que foi sempre assim. Está corroído por densas ferrugens.
Mas Cabelo é um sujeito justo. Como ofereceu R$ 150 pela geladeira, julgou que não se poderia vender o fogão, que padece deste estado que você pode observar. Então ofereceu de graça. Foi o pecado de Cabelo.
O grupo em questão é coisa séria, nunca tem piada. Era coisa séria. Até o Cabelo publicar a oferta de doar o fogão. Ele ainda alertou a marca: Dako. Ainda alertou do defeito (ferrugens), mas disse o mais importante, pra ele: funciona (o fato de ele saber isso com o fogão desligado há tanto tempo não vem ao caso).
A postagem do Cabelo foi o assunto do dia no brechó virtual. Os comentários dividiram-se entre o chiste e a revolta. "Sério?", "tô em choque", "lixo", "você quer alguém pra ir jogar fora pra você, né?" "meu amigo, dá uma lixada antes", "as pessoas precisam, mas não assim também" foram alguns dos comentários.
O Cabelo, ao conferir as postagens, não entendia, não podia entender. Mas é de graça, mas funciona, murmurava. Cabelo não conseguia entender a revolta, o chiste, a preocupação com "a lata". Assim como não entendeu direito a estupefação do Claudião alguns anos atrás. O fogão funciona (talvez), assim como os dentes.
PS: a peça ainda está disponível.