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Os pombos

Opinião

Lorrayne Saraiva | Escritora - 18/03/2017-19:25:10 Atualizado em 18/03/2017-19:25:04

Assim como uma fila de garbosas senhoras, ou ternas pérolas dispostas em uma cintilante fileira, como que unidos por um circunspecto fio de náilon, lá estavam eles; os pombos. Com suas arrulhas e gemidos compassados, erguiam majestosa sinfonia até o peitoril do sétimo andar - onde eu, dama oculta pelo véu de minha cortina, os examinava.
O calor do meio dia nos cobria como um cobertor cálido e protetor, mal conseguíamos olhar por entre as nuvens, de tanta claridade que se despregava do ponto amarelo acima de nossas cabeças. O vento parecia igualmente quente, como se a cidade fosse um grande fogão. Suávamos em bicas nas janelas. O suor se confundindo com a paisagem mansa da rua pouco habitada; um leiteiro, uma senhorinha, um mendigo hipnotizado pela sujeira dos próprios pés. Entretanto, o que mais se fazia notar em semelhante moldura, era a cumplicidade e ordem da família de pombos, morando no fio do poste, nos olhando de cima.
Os pombos figuram-se à raça oriental, com traços tão semelhantes que, para mim, seria uma tarefa impossível distingui-los entre si. O bico, a inclinação da cauda, a cor de grafite borrado; seres tão idênticos, e ao mesmo tempo, tão distintos com suas próprias liberdades!
Há quem houvesse contado! - vinte e cinco avezinhas do peito em pé -, empinados e dominadores, os pombos pareciam constituir uma perigosa facção; com seus olhos certeiros e seu ágil movimento de pescoço - para frente, para trás.
Do pescoço dos mais esbeltos, uma cor fúcsia estonteante se misturava ao tom roto e pobre do resto do corpo. Era como um raio violeta de fim de tarde, cortando um pântano. Parados sobre o fio do poste, exibiam excelente postura e inigualável destreza. Se por ventura, um na ponta esquerda se ouriçava, o que estava no final da direita sacolejava junto - como que movidos por uma corrente elétrica -, preparavam as gastas asas toda hora, separando-as do resto do corpo barrigudo, e penoso. E ainda que não fossem uma família real, portavam-se como uma infantaria de primeiro porte, fiéis à ideia de voo mediante a movimentos bruscos, em nenhum momento, se acovardavam acima dos passantes curiosos.
Uma pequenina menina passou admirada, com o fino dedo apontando para eles; os olhos brilhando de satisfação em vê-los elegantemente enfileirados. Que bênção de visão! Mas não durou a harmonia e a união daquela fila, pois um garoto tomado pela traquinagem da idade, mirou em um pombo, e o acertou com seu voraz estilingue. A morte foi seca, e trágica. Como um saco de areia, a pequena ave despencou do fio, e em seguida, todas as outras foram embora em uma revoada. E por um momento, o céu encheu-se daquela asas imundas, e dos corpos misteriosamente infectados. Voaram em círculos, percorrendo caminho de nuvens de ouro, e sumindo por detrás de altos edifícios.