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Meu idiota favorito

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 16/03/2017-22:34:05 Atualizado em 17/03/2017-00:27:24

Não é que eu não ache Jair Bolsonaro um idiota. O que penso sobre ele foi publicado num editorial que escrevi aqui neste espaço há alguns anos (http://migre.me/wfOp1). O problema é que um idiota também tem chance, e, pasmem, direito de ser presidente.
E quando Bolsonaro é o segundo nome mais lembrado em uma pesquisa de intenção de votos, temos um problema. Na verdade, dois problemas. Problema um: ele na segunda posição. Problema dois: não sabemos lidar com idiotas. E quando digo nós, leitor, digo nós todos que não vamos votar no Bolsonaro, mas principalmente nós jornalistas, que temos a chance de perguntar.
Ficamos o tempo todo esperando que todo mundo acorde por conta própria para a idiotice do homem. Que o idiota se enforque na própria estultice. Que é um sujeito muito caricato, e que logo logo todo mundo vai perceber isso. Não é assim que funciona, você sabe (vide Trump).
Damos, com nossa descrença, uma certa vantagem ao idiota, por que não o levamos a sério e, pior, nos limitamos a discutir em seus termos.
O idiota impõe o debate. Entramos na agenda do idiota.
Bolsonaro dá entrevista, e só se pergunta: o senhor é homofóbico? É racista? É machista? É a favor do estupro? É a favor da tortura?
Ele diz que não, e dá uma tirada do tipo "não sou, mas sou", e ganha mais alguns pontos com quem já tinha um placar elástico. Quem gostava do sujeito por suas tolices passa a gostar mais ainda, agora por sua "ousadia", e quem o detesta por causa das mesmas tolices, descobre que...uau, Bolsonaro é Bolsonaro. Ou seja, não descobre nada de novo.
Não é que não seja mais preciso abordar esses assuntos, o problema é só falar disso.
É como naquele ditado: "Nunca discutas com um idiota. Ele arrasta-te até o nível dele, e depois vence-te em experiência". A gente usa o ditado em partes. Pois discutimos com o idiota, mas apenas sobre aquilo em que ele sempre leva vantagem: suas idiotices.
Nunca, ou quase nunca, se pergunta ao Bolsonaro: que vai fazer com a dívida pública? E a educação, qual o caminho pra melhorá-la? E a Previdência, como não quebrá-la? Por que é que sua atuação na Câmara quase se restringe a frases de efeito? Suspeito que suas respostas serão tão profundamente rasas quanto essas mesmas frases de efeito, mas só suspeito, por que o sujeito não fala disso, e o pior: não fala por que ninguém pergunta. Ainda estamos perguntando do kit gay.
Nunca se fala com Bolsonaro em qualquer idioma que não seja a própria língua do deputado. Se a coisa toda for levada assim até 2018, vai ser bom pra ele. Vai continuar falando o que quer, sob aplausos dos seus e rostos indignados dos outros, saturados da expectativa de que, um dia, todos vão acordar - de novo, não funciona assim.
É duro aceitar, mas a verdade é que o melhor caminho contra Bolsonaro é tratá-lo como adulto (sei que é difícil, mas você conhece outros adultos iguais).
Não é que a imprensa deva fazer campanha contra o Bolsonaro em cada entrevista, mas é que devia mostrar como pensa sobre assuntos estratégicos um sujeito que tem chance real de ser (respire) o próximo presidente do Brasil. Ou talvez mostrar como não pensa.
Enfim, obrigá-lo a falar sobre o que um adulto pré-candidato a presidente deveria falar.
Mas tudo que a gente faz é cobrir a boca com as mãos a cada bobagem dita. Depois, continuamos tratando o sujeito como sempre: nosso idiota favorito.