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O frentista implacável

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 09/03/2017-23:53:46 Atualizado em 10/03/2017-00:11:37

Parei pra abastecer no posto de sempre. Horário morto. Dois frentistas, um carro branco, eu e meu Uninho. Três bombas livres, uma ocupada pelo carro branco. Um frentista, mais novo, dava informações ao motorista.
O outro, pra lá dos sessenta anos, me chamava com um intranquilo vaivém de dedos exatamente para o mesmo espaço onde estava o carro do motorista que pedia informações, como se quisesse apressá-lo a deixar o posto e, em silêncio, dissesse: tem gente atrás, tem gente atrás.
Não entendi nada, mas esperei. Quase paciente, quase impaciente. O carro branco foi embora, parei ao lado da bomba desocupada. Trinta reais, por favor (é a crise). Eu e os dois frentistas no posto vazio. O mais velho começou:
- Eu abasteci dois carros enquanto você dava informação. Não pode.
- Mas o posto tá vazio - defendeu-se o mais novo, rindo um pouco constrangido, talvez achando que fosse tudo uma brincadeira, talvez pela bronca na frente de um estranho. Olhou-me ainda com o sorriso, buscando um pouco de cumplicidade.
O mais velho era implacável, implacável.
- Dois carros. Abasteci dois carros e você dando informação. Não pode. Tem câmera, o patrão vê. Não pode. Ninguém dá informação que nem você, informação é assim: 'vai lá, vira ali e pronto'. Vai pedir informação pra ver se vão te explicar assim que nem você.
- Se ainda tivesse um monte de carro, tudo bem, mas o posto tá vazio - repetiu o mais novo, ainda insistindo em sua tímida defesa.
Mas eu já disse que o mais velho era implacável.
- Por isso que vocês frentistas não vão pra frente. Não pode.
O mais novo afastou-se para atender um novo motorista na bomba ao lado; enfim, o esporro fora interrompido. Mas o mais velho era implacável. E eu ainda estava lá com dois ouvidos.
- Essa molecada é dureza, por isso que fica a vida inteira trabalhando de frentista. E depois chega dia 5 e ainda quer receber.
Sorriu pela primeira vez ao constatar a própria argúcia, enquanto colocava meu cartão na maquininha.
Faz dois dias, mas ainda me pergunto o que transformou aquele sujeito numa impiedosa máquina de produtividade. Seria a crise? O medo de perder o emprego? Ou a fidelidade a uma personalidade forjada, mesmo em tempos de bonança, pelo receio do iminente infortúnio?
Será que desde jovem cultivara a conduta de um capataz?
E como os outros o viam, como é que o patrão o via? Era um funcionário exemplar, padrão, o símbolo da eficácia em primeiro lugar?
Lembram que ele disse "por isso é que frentista não vai pra frente?" E será que ele foi pra frente? Mas como, se estava ali abastecendo o carro, com o mesmo uniforme do mais novo? Era o gerente, o supervisor dos frentistas, ou apenas um chato, um autêntico chato?
Quase perguntei, quase conversei, quase tentei entender. Mas o imaginei infartando de ódio consigo próprio e comigo por perder tempo conversando com um cliente, explicando o óbvio, em vez de ser produtivo, simplesmente produtivo.
Digitei a senha na maquininha de cartão, apertei o verde e fui embora.