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A arte de ter bom senso

Lance Livre por Claudio Gioria

Claudio Gioria | Editor-chefe do TODODIA e escreve aos sábados - 31/03/2017-21:42:36 Atualizado em 31/03/2017-23:28:03

Entre as cinco principais qualidades que uma pessoa pode se orgulhar, bom senso está entre elas.
Para qualquer atividade da vida, a ausência destas duas palavras na sequência pode ser catastrófica. E não precisa ser nenhum gênio da administração para saber disso. Eu não sou, e sei.
Embora o Cabelo, editor aqui no TODODIA, vai reclamar quando ler estas linhas ("O Claudião só sabe escrever do Tite e do Messi", dirá ele em meio ao fechamento da edição), lá vamos nós de Tite novamente, afinal ele acaba de levar o Brasil a mais uma Copa do Mundo. O que há alguns meses parecia um negócio complicado, chega agora com uma antecedência recorde.
Mas não vou falar do treinador que voltou a fazer o Brasil jogar bola com praticamente os mesmos jogadores. Não do treinador que faz a gente enxergar em campo o que ele prega taticamente. Não do treinador que se preparou para ser técnico da Seleção. Não do treinador que entende do que faz.
Mas do gestor.
Um gestor que, acima de tudo, demonstra ter bom senso.
Não é dele a culpa desse calendário insano do futebol brasileiro. Mas ele tem bom senso, palavras que ele mesmo usou, para numa reta final de Brasileirão não atrapalhar a vida de quem brigava pelo título, como fez na convocação de outubro (e era para as Eliminatórias) ao só chamar um do Flamengo e um do Palmeiras. E deixou bem claro os motivos.
Como não tem três Neymar no Palmeiras ou no Flamengo, por que fazer clubes e torcidas se voltarem contra a Seleção, atrapalhando a principal competição nacional?
Questão de bom senso.
E nem por isso a Seleção deixou de jogar, e de ganhar.
O clima leve em torno dos jogadores da Seleção Brasileira, execrados não faz muito tempo. O clima leve nas entrevistas coletivas, que nada se parecem com aquelas intermináveis batalhas verbais dos idos de Felipão e Dunga. Todo esse clima se deve, e muito, ao bom senso de Tite. Clima que é fundamental em qualquer ambiente profissional.
Sumiram aquelas "matérias de bastidores" sobre jogador insatisfeito com isso, insatisfeito com aquilo. Porque é óbvio que as relações melhoraram. Não existe mais cartilha, linha dura, eu sou o chefe e você me obedece ou algo do gênero. Existe respeito, o que é adquirido na base do diálogo, da honestidade, do olho no olho. E não na base da imposição, do medo.
Parece algo tão simples.
Mas não é.
Se fosse, encontraríamos pessoas de bom senso em cada esquina. E elas são cada vez mais, exceções.
Sim, é lógico que os resultados ajudam nesse clima todo. Mas quando Tite assumiu, eles não existiam e a Seleção estava fora da zona de classificação para a Copa. Era uma pressão danada, mesmo com Tite sendo praticamente uma unanimidade. Como se diz no futebol, ele ganhou o grupo.
Em um país onde o bom senso é artigo de luxo nas relações humanas, Tite deixa uma contribuição além das quatro linhas, mesmo em uma função sob enorme pressão na qual lida com um bando de milionários, famosos e realizados na vida, que não tem qualquer preocupação dessas que nos afligem no dia a dia.
Desculpe, Cabelo, por falar de Tite novamente. Mas nós temos de perder a péssima mania de supervalorizar os erros e desvalorizar os acertos.
É uma questão de bom senso.
Bom senso que você, Cabelo, sabe bem o que é. Afinal anunciou o seu fogão sem pedir dinheiro em troca (se você não conhece a história do fogão do Cabelo, leia na coluna do George: http://migre.me/wlBcd).

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