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Quem vai fazer algo?

Lance Livre por Claudio Gioria

Claudio Gioria | Editor-chefe do TODODIA e escreve aos sábados - 24/03/2017-23:39:55 Atualizado em 24/03/2017-23:56:13

Todo jogo é quase uma súplica.
Vou falar do Rio Branco, mas pode pôr aqui qualquer outro clube médio ou pequeno não só do Estado, mas de todo País. E não ache você que todo clube grande passa ileso disso também.
O Rio Branco foge da concorrência do futebol na TV aberta. Faz promoção. Já deu mostras que desta vez tem gente interessada em reerguer o clube. Está brigando por vaga. Vive chamando a torcida para o estádio. E quando chega o dia do jogo, 400, 600, 700 pagam ingresso.
Quem lá está deve desanimar. Deve pensar algo do tipo: ninguém mais liga para o Rio Branco. E com certeza escuta dos "entendidos", como eu já escutei um milhão de vezes: "Rio Branco? É só aquela meia dúzia que vai no estádio mesmo. Acabou".
Essa história deve se repetir em Monte Azul, em Matão, em Bauru, em Jundiaí, em Santa Bárbara ou em Limeira.
A média de público do Rio Branco em toda a história do Décio Vitta é de 2.550 torcedores. No auge, anos 90, chegou a 4.010. Nos anos 80, naquela busca incessante pelo acesso, 2.639. Nos anos 2000, que embora teve mais da metade na primeira divisão, o clube passou alguns maus bocados, 1.574. E, finalmente, de 2010 pra cá, nem mil por jogo: 882.
Vamos ficar só de 2010 pra cá. Acima de 5 mil torcedores, apenas na final da Série A-3 de 2012, contra o Grêmio Osasco (5.106 pagantes; 6.280 total). Acima de 3 mil, só os 3.422 contra o União Barbarense em 2014. Acima de 2 mil, apenas em dois jogos da Série A-3 de 2012, em outros três dérbis contra o União e em duas partidas da Série A-2 do ano passado. Nos outros 84 jogos no Décio Vitta neste período, nem 2 mil.
Você pode aqui arrumar 517 justificativas. Qualidade do jogo, novas opções de lazer, crise, desemprego, perda de identidade...
Cada uma certamente terá sua parcela de culpa.
Mas e aí? Ficamos nessa e ponto final? Nos conformamos e vida que segue?
Hoje tem Rio Branco x Matonense no Décio Vitta. Ingresso a R$ 2 mais um quilo de alimento. Na verdade, de graça. Tão de graça quanto o Futebol Sustentável (duas garratas pet por um ingresso) que a Federação Paulista criou e é um sucesso quando acontece.
Os públicos aumentam consideravelmente quando há o Futebol Sustentável, o que só nos faz crer que o interesse existe, mas algo precisa ser feito para que esse interesse volte a ser como era antigamente, com as peculiaridades de cada campeonato e de cada tamanho de clube.
Porque se isso não for feito, talvez lá na frente seja tarde demais ou dê muito mais trabalho.
Contra o São Carlos, seu último jogo em casa, o Rio Branco arrecadou R$ 7.210 e teve as seguintes despesas: R$ 10,24 (seguro), R$ 360,50 (INSS), R$ 72,10 (Fundo de Valorização e Desenvolvimento), R$ 1.100 (ambulância), R$ 600 (ambulatório), R$ 300 (bilheteiros), R$ 1.540 (delegado, assessor e tutor), R$ 720 (equipe de apoio) e R$ 3.430 (policiamento). Resultado: prejuízo de R$ 922,84.
Nesta rodada da Série A-3, pelo menos metade dos jogos deu prejuízo. Na 9ª rodada da Série A-1, três de oito jogos fecharam no vermelho. Na 11ª rodada da Série A-2, foram sete de dez.
É óbvio que algo está errado. Com as despesas, com as receitas e com o número de torcedores. E aí, quem vai fazer algo?
Se FPF e clubes não sentarem e buscarem soluções para equilibrar essa matemática e ter mais gente no estádio, a média de público do Rio Branco - ou, repito, de qualquer outro clube do interior - na próxima década talvez seja de 400. Depois 200, depois 100. Até que alguém vai perguntar porque o Rio Branco fez um estádio tão grande.
É preciso saber se nesse momento vale sacrificar a arrecadação - em uma ação conjunta, não isolada - para voltar a ter o torcedor de volta e, quem sabe, poder cobrar um preço justo daqui a alguns anos, ou se daqui alguns anos não teremos mais torcedores nos estádios do interior.
Não é uma promoção aqui ou ali. É um planejamento encabeçado pela federação, com a participação desse imenso interior de São Paulo, que deve começar respondendo a uma pergunta simples: o que fazer para ter o torcedor de volta?
Essa deveria ser a prioridade número 1. Se por 'n' motivos o torcedor abandonou o futebol do interior, o que eu posso fazer para resgatar um pouco disso?
Porque sem torcedor no estádio, o futebol não faz sentido.
O falecido presidente da federação Eduardo José Farah podia ter um milhão de defeitos. E tinha. Mas de uma coisa ele não podia ser criticado. Ele não tinha medo de ousar, não tinha medo de inventar, não tinha medo de inovar. E isso impulsionou por muitos anos o Paulista e auxiliou os clubes do interior.
Sim, vivemos uma outra época, muito mais difícil. Por isso mesmo a ousadia precisa ser ainda maior.
Ações como a do Rio Branco de hoje são louváveis e necessárias, e mostram que alguém se incomoda com 400 pagantes, o que é um bom sinal.
Mas o futebol do interior como um todo não pode viver de ações isoladas. Para sobreviver, e está cada vez mais difícil, clubes e federações precisam pensar o futebol dos pequenos como um todo. Caso contrário só vai sobrar clube pequeno de empresário, que não tem e não precisa de torcida no estádio.