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O açougueiro e o Bruno

Lance Livre por Claudio Gioria

Claudio Gioria | Editor-chefe do TODODIA e escreve aos sábados - 17/03/2017-23:52:41 Atualizado em 18/03/2017-00:06:53

Comprar meio quilo de carne moída era minha única tarefa no supermercado naquele dia.
Na fila do açougue, apenas uma senhora na minha frente.
Na TV, gols da rodada. Palmeiras jogando.
Enquanto separava alguns bifes, o açougueiro disparou:
- O Palmeiras contratou o Bruno.
Demorei alguns segundos para perceber que ele estava falando comigo. Outros tantos mais para entender de qual Bruno ele falava. Tempo suficiente para aquela encarada à espera por uma resposta e a repetição:
- O Palmeiras contratou o Bruno.
Bruno, o goleiro, havia acabado de sair da cadeia e já era do Palmeiras? Não tinha sentido o que aquele açougueiro estava falando. Além de ser absurdo um clube do tamanho do Palmeiras contratar o Bruno, eu havia visto o noticiário pela manhã e não havia uma linha sobre isso, nem especulação de blogueiro-que-gosta-de-chute.
Resolvi retrucar meio na brincadeira.
- O Palmeiras não precisa de goleiro. Tem Fernando Prass, tem Jailson.
Foi quando o açougueiro, já meio impaciente com a minha ignorância, subiu o tom:
- Não!!! O Palmeiras contratou o Bruno. Eu tô sabendo.
Foi a senha para eu perceber que não valeria a pena continuar o assunto. Adotei o ahã-com-movimento-positivo-de-cabeça-seguido-de-alguns-pois-é.
E ele continuou.
- Viu só. O Bruno é inocente. Não encontraram nada dele no local do crime e tiveram de soltá-lo. Agora o Palmeiras contratou ele. Tô sabendo.
Aí resolvi parar até com o ahã-com-movimento-positivo-de-cabeça-seguido-de-alguns-pois-é para não dar mais corda.
Não adiantou.
- E você viu que ninguém falou que o Edinho foi preso, né? É filho do Pelé. O Pelé tem mais poder que a Globo. Não deixou ninguém falar que o filho dele foi preso.
A senhora na minha frente já estava impaciente. Ainda mais porque os últimos bifes que ela havia comprado estavam duros.
- Vê se não me manda bife duro que nem a outra vez, hein! - cobrou do açougueiro, mal sabendo que bife duro não é, depois de ontem, um problema a ser considerado.
O assunto Bruno sofreu uma pausa brusca.
- Minha senhora, eu sou honesto. Eu até sei que tem uns aqui que manda uns bife duro. Eu não. Olha aqui, ó (tirando o bife do saco e mostrando a carne, segundo ele, de primeira e bem cortada).
Era uma senhora impaciente na minha frente, outra atrás, já também irritada internamente com o açougueiro-com-informações-exclusivas.
E eu ainda nem havia pedido meu mero meio quilo de carne moída.
- O que vai campeão?
- Meio quilo de carne moída (rezando para o assunto Bruno - e qualquer outro - ter chegado ao fim).
- O Bruno é inocente. Os caras se ferraram, tiveram de soltar ele.
Sim, o assunto Bruno não havia chegado ao fim. E ele disse de novo que estava sabendo que o Palmeiras tinha contratado ("tô sabendo").
Peguei minha carne moída e já emendei um obrigado acelerando a retirada. O açougueiro estava com aquele ar de quem tinha dado uma notícia exclusiva, com uma certeza de fazer inveja até aos sentenciadores de Facebook. Não dei tempo para ele me dar detalhes da negociação entre Palmeiras e Bruno e deixei o pepino para a impaciente senhora atrás de mim.
Só deu tempo de ouvir o nome Bruno de novo, mas já não era mais comigo.
Dias depois, carne moída já no estômago (será que estava estragada?), Bruno apareceu fazendo selfie com "fãs". Mais alguns dias, assina contrato com um clube. Não o Palmeiras, mas o Boa Esporte. Outros mais, entrevista coletiva. Autógrafo para crianças e pais. Notícia em tudo quanto é lugar.
Bruno foi condenado a 22 anos em primeira instância por assassinato triplamente qualificado e ocultação de cadáver. Por mais que tenha amparo legal a decisão de soltá-lo, choca vê-lo solto devido à morosidade da Justiça em julgá-lo em segunda instância. Choca ver um clube querer "aparecer" a qualquer custo contratando um goleiro condenado por homicídio e que não joga há quase sete anos (será que o Boa tem olheiro na cadeia?). Choca o argumento de que ele merece nova chance se ele ainda nem pagou pelo que foi condenado (se é que é possível cumprir uma pena e ficar quite após matar alguém nessas circunstâncias). Choca ver um bando de dirigentes idiotas em busca de holofotes sorrindo ao lado de um condenado por assassinato. Choca absolutamente tudo nessa história.
Só falta agora o Bruno jogar bem e acabar em algum clube grande por aí. Virar ídolo de novo.
Impossível?
Nunca duvide da capacidade do ser humano.
Aí não vai ser só o açougueiro a ter certeza que "não encontraram nada dele no local do crime".