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Contas de torcedor

Lance Livre por Claudio Gioria

Claudio Gioria | Editor-chefe do TODODIA e escreve aos sábados - 10/03/2017-22:42:38 Atualizado em 10/03/2017-23:52:27

Você, torcedor como eu, sabe do que vou falar.
Em situações adversas, às vezes impossíveis (ou não), quando nosso time precisa de gols, sempre fazemos uma conta simples, a de gol por minuto. É meio como uma tentativa - quase sempre frustrada - de enxergar alguma facilidade na difícil missão que se avizinha.
O Barcelona entrou em campo contra o PSG precisando de 4 a 0 para decidir nos pênaltis. A conta era simples. Um gol a cada 22min30s. Viu como a missão se tornar mais fácil vista por este ângulo? Cheio de craques no ataque, o Barcelona só precisava fazer um gol a cada 22min30s, e isso desprezando-se os acréscimos de cada tempo, quase sempre valiosos nessas situações. Nada impossível. Aliás, muito mais fácil do que encarar um 0 a 4 assim, na frieza que os números impõem.
Sim, a gente despreza completamente a chance de sofrer gol num dia como esse nessas nossas contas.
O jogo começa e logo 1 a 0, a 3min. Conta refeita que vira uma quase certeza da vaga. Um gol a cada 29 minutos levava a decisão para os pênaltis.
O segundo demorou um pouco. De qualquer forma, quando ele saiu, a conta passou a ser um gol a cada 25 minutos, melhor que aquela do início. E só faltavam dois. Tudo caminhava nos conformes matemáticos.
Aqui entra outra conta que a gente, assistindo e torcendo, faz: dois gols no primeiro tempo, dois gols no segundo. Mais simples ainda. A primeira parte já estava cumprida. Se a segunda se confirmasse, tudo iria para os pênaltis, para onde o Barcelona aceitaria ir de olhos fechados se isso lhe fosse proposto antes da partida.
Quando Messi fez o terceiro, já dava para fazer uma conta folgada para nem precisar dos pênaltis. Um gol a cada 20 minutos e vaga direto nas quartas. Na pior da hipóteses, um em 40 minutos e decisão por pênaltis.
Futebol nunca foi ciência exata, mas as "contas de torcedor", com uma variação aqui, outra ali, seguiam na quarta digamos dentro da margem de erro.
Foi quando Cavani bagunçou a nossa matemática. Um gol fora de casa que aparentemente acabava com as chances do Barcelona, eliminando inclusive a possibilidade dos pênaltis.
Mas, refeito do susto e pensando com um pouco mais de razão, sem a emoção do momento, um gol a cada 9 minutos até pode ser difícil, mas não impossível. Afinal, é o Barcelona, que embora sem brilhantismo, com Messi apagado e Suárez e Neymar discretos, mesmo assim, já havia feito três gols.
O tempo foi passando. Um gol a cada 8 minutos, um a cada 6, um a cada 5...
Quando a vaca coloca um pé no brejo, nós torcedores mudamos a conta porque aquela proporção de gols por minuto se torna tão inverossímil que não nos serve mais como muleta. E torcedor que é torcedor sempre acredita, ou pelo menos tenta.
Se fizer um gol até os 35min, ainda dá. Esse passa a ser o mantra, que rapidamente passa para pelo menos um gol até os 40min.
Quando, já no segundo tempo, o primeiro dos dois dígitos do relógio é o 4 e seu time precisa de três gols, você até busca alguma conta, mas parece que enfim cai em si.
Reverter um 4 a 0 entre dois clubes grandes em mata-mata não dá mesmo, mas enfim tentamos, pensa o torcedor, que prossegue: valeu o esforço dos jogadores; futebol é assim mesmo; resta agora torcer para que o rival não ganhe o título; não dá para ganhar sempre; ano que vem tem mais... E outras frases-feitas-que-tentam-consolar-sem-consolar.
Aí o Neymar faz um golaço de falta como aquele, com quase 43min do segundo tempo. A sensação da gente, torcedor, é apenas um lamento que o PSG conseguiu fazer um. E aí vem um período de análise: tínhamos tudo para levar para os pênaltis; quando fez 3 a 0, deveria ter cadenciado mais o jogo, não se exposto tanto, porque ainda faltavam 40 minutos; tão importante quando marcar o quarto, era não sofrer um (ops, você lembra que na sua conta inicial nem cogitava sofrer um gol).
A torcida comemora o golaço de Neymar com tímidos aplausos. Talvez mais pela beleza do gol. Quase deu... Precisava levar 4 em Paris?
Não demora nada e o juiz marca um pênalti inexistente (veja de novo pela câmera do lance ao vivo e realmente parece pênalti, o que de fato cai por terra com a câmera de trás do gol).
Você pensa: "ai, meu Deus, será que dá?". Você já sofreu tanto que aí entra o outro lado do torcedor, aquele que tenta fazer você parar de sofrer, afinal não é justo ser eliminado com requintes de crueldade. Diz a voz da razão: vamos parar por aqui, afinal você já sofreu o que deveria e criar expectativa só o fará sofrer de novo.
Mas quando Neymar faz 5 a 1 e o quarto árbitro sobe a placa de 5 minutos de acréscimo, você tem certeza que dá. Não tem mais conta. É só um golzinho. Para quem já fez cinco... Joga a bola na área, cai que o juiz dá pênalti, chuta, chega de tocar a bola de lado, Barcelona, que saco! Você vira o técnico, na arquibancada ou no sofá de casa. Você quer ser testemunha ocular da maior virada em um mata-mata de todos os tempos. Testemunha do impossível.
E quando sai um gol a segundos do fim do acréscimo, nestas circunstâncias, você se emociona mesmo sem ser torcedor de um dos clubes. É difícil explicar para quem não gosta de futebol o que a gente, que gosta, sente em dias assim quando dois clubes lá de longe estão jogando.
No fim das contas, você no fundo sabia que um gol a cada 22min30s não tem nada de impossível. Tanto que o Barcelona, contando os acréscimos, fez um a cada 16min30s. Não necessariamente distribuídos uniformemente ao longo dos 100 minutos de partida. Afinal, ainda bem, o futebol não é uma ciência exata. Nem mesmo nas suas contas de torcedor.

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