OK
Close

Lembranças de um pequeno torcedor

Lance Livre por Claudio Gioria

Claudio Gioria | Editor-chefe do TODODIA e escreve aos sábados - 03/03/2017-22:28:39 Atualizado em 04/03/2017-00:00:34

É chavão, mas parece que foi ontem.
Dia 25 último completou-se 30 anos da maior final de Campeonato Brasileiro de todos os tempos. Guarani 3 x 3 São Paulo. Nos pênaltis, São Paulo campeão.
Eu tinha 11 anos. Mas parece que foi ontem porque se fecho os olhos enxergo tudo com assustadora clareza.
Tínhamos uma bicama no "quarto da bagunça". A TV ficava em um suporte de rodinhas, que me lembro exatamente como era de tanto ficar sentado em frente a ele aprendendo a dar nó (minha mãe amarrava um barbante e deixava a gente lá, eu e meu irmão, para aprender - ou para dar sossego).
Meu irmão nunca gostou muito de futebol. Mas gostava de me atazanar. Para evitar "coisas de irmão", no dia da final o meu pai, culpado por eu gostar de futebol, desmontou a bicama e sentou no meio. Eu à direita dele, meu irmão à esquerda. Minha mãe, foi dormir.
Na sala, era a estreia do videocassete. O nosso primeiro videocassete. Que coisa fantástica que haviam inventado. Todo cuidado era pouco para não errar a gravação histórica. Fita da melhor qualidade, da JVC, para gravar e guardar a final do Campeonato Brasileiro, transmitida ao vivo para todo Brasil só pela TV Cultura. Isso mesmo, TV Cultura.
A história do jogo todos conhecem. 1 a 1 no tempo normal. Prorrogação e o Guarani vencia por 3 a 2. Eu, sabe-se lá como, segurava as lágrimas. Segurava, na verdade, para não levar bronca do meu pai, que já me olhava de rabo de olho, com suas sobrancelhas grossas, me intimidando para que eu não repetisse as lágrimas das Copas de 82 e 86. Já tinha até ameaçado parar de ver jogo comigo se eu voltasse a chorar.
A garganta engolia seco quando saiu aquele lançamento do Wagner Basílio. O Pita (como jogava bola!) desviou de cabeça e ele apareceu.
Eu tinha 11 anos, já disse. E com 11 anos a gente ainda tem ídolos. Careca era o meu. E foi ele quem empatou, nos instantes finais da prorrogação.
Eu dei um pulo e quando a lei da gravidade se fez presente, percebi que havia quebrado a parte inferior da bicama. A madeira arriou. Meu pai não sabia se olhava o estrago, comemorava o gol ou mandava eu ficar quieto, afinal, lembre-se, minha mãe já tinha ido dormir.
Vieram os pênaltis e o meu ídolo errou. Na última cobrança, bastava o Wagner, o mesmo do lançamento, marcar para o meu primeiro título brasileiro. Ele fez, mas o narrador, meio que me perseguindo, gritou "pra fora", corrigindo logo em seguida para "é gol".
São Paulo campeão brasileiro.
A gravação na sala ficou perfeita. Mas, ainda inexperiente em gravações, deixei o VHS dentro do videocassete e não tirei o lacre (havia um lacre que você tirava do VHS que evitava gravar qualquer coisa por cima; se quisesse gravar de novo, era só colar uma fita no local).
Acredite você ou não, dias depois minha mãe destruiu o primeiro tempo do jogo gravando por cima Os Trapalhões (como odeio Os Trapalhões!). Ela nunca se perdoou por isso, mas depois de 30 anos a culpa já prescreveu. Acho que também já a desculpei.
Foi o primeiro (FITA A) de uns 180 VHSs só com gravações de esporte, que depois viraram uns 900 DVDs com jogos e programas esportivos até hoje.
Foi também uma das minhas primeiras colagens de jornais nos mais de 70 cadernos com recortes de jornais, que depois viraram jornais inteiros arquivados, em papel e virtualmente.
Foi também a primeira Placar que eu comprei na banca, num dia chuvoso (coloquei sob a camisa para correr até o carro), lá na Comendador Müller. Banca que era de um senhor barrigudo, simpático, careca e que sempre estava com os óculos pendurados no pescoço.
Era a edição extra com o superpôster do campeão. Minha mãe reclamou do preço (Cz$ 25,00, que não faço a mínima do que representava à época). Mal sabia ela que eu começaria ali a comprar a revista toda semana e depois, mais velho, compraria as cerca de 800 edições que já haviam sido publicadas antes daquela final inesquecível.
Foi após a maior final de Brasileiro de todos os tempos que tudo isso aconteceu.
Hoje, não existe mais videocassete e até os gravadores de mesa de DVD não são mais fabricados. Desde o final do ano passado, quando os meus dois quebraram (não tem peça de reposição), não sei como arquivar gravações da TV.
As coberturas esportivas nos jornais minguaram e eles não são mais referências para arquivo. E não temos mais Placar toda semana.
Tenho a sensação que daqui alguns anos teremos melhor documentação dos anos 80 do que da atual década, mesmo com toda essa tecnologia que nos cerca.
Ah... a bicama foi consertada, trocou o tecido algumas vezes e hoje está no meu escritório, onde guardo tudo que colecionei nestes 30 anos, exatamente a partir da maior final de todos os tempos. É nela que meu filho adora ficar deitado vendo TV enquanto o pai pesquisa, arquiva e cataloga tudo que lá entra de novo.
E ele já aprendeu que aqueles cerca de 40 livros do Corinthians no canto da estante são "caca", "eca". Afinal, alguém terá de sentar comigo naquela bicama em alguma final de campeonato.