OK
Close

Daniel Blake e a rotina do absurdo

Cultura e Entretenimento

Rodrigo Pereira | Editor do jornal TODODIA e criador do blog: http://cinexistance.blogspot.com.br/ - 16/03/2017-22:34:01 Atualizado em 16/03/2017-22:33:56

2015. Ligo em uma operadora de TV, internet e telefone e peço para cancelar a assinatura de TV digital. Três ou quatro transferências depois, já com uns 15 ou 20 minutos perdidos, a ligação misteriosamente "cai". Pego o protocolo informado e ligo novamente. Informo o protocolo para o novo atendente e explico resumidamente a situação, com a esperança de partir do ponto de onde tinha parado, mas todas as perguntas feitas pelo primeiro operador são repetidas por esse, que não deixa de fazê-las, mesmo alertado por mim. E, apesar de todo o questionário, me transfere para um setor onde as perguntas voltam a ser repetidas. Consigo encerrar o procedimento só ao me irritar e pedir agilidade. No mês seguinte chega a fatura e... lá está a cobrança indevida pela TV digital. Mesmo procedimento, 30 minutos perdidos, mais um número de protocolo, e a conta corrigida enviada por e-mail. Mês seguinte... de novo lá o valor na fatura. Passei a realizar tarefas durante as jornadas telefônicas, como limpar o quarto ou cortar as unhas. Inseri tais ligações na rotina mensal. Por seis meses. Até apelar à ouvidoria e, finalmente, ser ouvido. Em meio a tantos fios, telas, atendentes, cheguei a me acostumar com o absurdo.
"Eu, Daniel Blake" (Ken Loach, 2016), vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em 2016, mostra um pouco dessa descaracterização do humano comum à burocracia. A história é do carpinteiro Daniel Blake, mas poderia ser a minha, sua ou de qualquer outra pessoa. Blake, numa incrível interpretação de Dave Johns, que sofreu um ataque do coração, foi afastado do serviço e acaba passando por um calvário para tentar receber assistência previdenciária. Em uma jornada que beira um contexto kafkiano, ele percorre setores e mais setores do serviço público para ser orientado sobre passos e mais passos a adotar para conseguir receber um benefício ao qual tem direito como cidadão.
Em sua jornada em busca de alguém que o enxergue, Daniel encontra Katie (Hayley Squires), mãe solteira, com dois filhos, e em uma situação de pobreza ainda mais acentuada que a sua. O diretor traz cenas em que, mesmo tendo uma solução prática sendo sugerida pela pessoa em sua frente, funcionários do Estado não a acolhem sob alegação de não poder ultrapassar procedimentos previstos. O cineasta expõe uma sociedade engolida por etapas inúteis e sem sentido, tudo com o intuito de que quem busca o final do túnel desista no meio. No Brasil, o exemplo é fresco: a aposentadoria pode ser ainda mais distanciada da população se aprovada a reforma previdenciária.
Embora inteligente, o protagonista não é adaptado a novas tecnologias e percebe-se em um mundo que exige que ele se adapte, e não o contrário. Ele aceita o desafio, mas conclui logo que seu valor social é ignorado. O que mais angustia no enredo é perceber que Daniel destoa do contexto geral e é visto como ameaça simplesmente por não aceitar tais condições. Enquanto grita por seus direitos em uma sala lotada de um repartição pública, os demais cidadãos na fila apenas o olham. A maioria já vê as filas intermináveis como uma situação comum na rotina humana. A absurda espera por algo que nunca chega se tornou normal. E quando toma atitudes mais drásticas, o carpinteiro vê-se apoiado por um mendigo, alguém que, depois de chegar a uma condição ainda mais precarizada, tem mais capacidade de lançar um olhar mais crítico e amplo sobre o "rei nu".