OK
Close

A vida compartilhada

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 17/02/2017-00:57:17 Atualizado em 17/02/2017-01:19:26

Há um conto do Luis Fernando Veríssimo em que o personagem principal faz um golaço de bicicleta durante uma pelada na praia. O problema todo é que o jogo era com desconhecidos. Não havia câmeras - desconfio que na época não houvesse nem mesmo celular, muito menos com filmadora.
Ao cair na areia depois da pedalada perfeita no ar, tudo que o autor da obra-prima observou foram olhares de desdém dos adversários. Sorte, disse um. Ele podia até contar pros amigos, mas... quem iria acreditar? Quem joga bola sabe a raridade que é um gol de bicicleta entre amadores - mesmo entre profissionais. Não haveria uma só testemunha a corroborar o feito. Claro, ele poderia gravar um vídeo com o relato de alguém que estava em campo, se houvesse possibilidade de fazer vídeos.
A angústia de ver tolhida sua necessidade de compartilhar uma proeza deve ser profunda. Por isso é que de todos super-heróis, o mais feliz deve ser o Homem de Ferro, que jogou pro ar toda aquela cafonice de identidade secreta e deixou todo mundo saber que era ele o homem por trás da armadura.
Hoje é difícil ter a necessidade de compartilhar entrevada. Há ao alcance dos dedos ferramentas para registrar e, principalmente, meios disponíveis e gratuitos para divulgar.
Talvez por um passado de compartilhamentos tão discretos, restritos a círculos de amigos, passamos a nos refestelar na fartura da oportunidade. Um clique, e grava-se ou fotografa-se. Mais um, e torna-se público. A tentação é grande, creio que tão grande que é capaz de solapar sem esforços o raciocínio que poderia (deveria?) acompanhar a ação de compartilhar.
Perguntas como "a quem interessa?", ou "devo divulgar isso?" são suplantadas pela incrível possibilidade, criada pela incrível tecnologia, de simplesmente conectar-se ao incrível mundo. Não importa, ou importa menos, se a mensagem vale a pena.
Provas? Você já deve ter visto publicações de pessoas relatando um acidente da qual escaparam sem um arranhão - mas publicada com a devida foto do para-choque levemente amassado. Com o adendo: "estou bem, amigos" (os amigos nem sabiam do acidente).
Ou um registro de alguém que logo cedo publica a foto do sol radiante atrás de si, com a legenda: "bora correr".
Um belo prato de macarronada, e o convite: "servidos?"
Uma ida ao médico com a mãe, na verdade, já é o bastante para uma selfie com a transcrição: "Vamo levar a velha pra fazer uns exames que com saúde não se brinca." Se você for mais azarado, já deve ter visto a foto de alguém sentado no vaso sanitário, acompanhada de alguma piadinha que tinha a pretensão de explicar o inexplicável.
Em "Amor Líquido", curiosamente publicado bem perto da data de criação do Facebook (2004), o sociólogo polonês Zygmunt Bauman arrisca que nesta era, que ele chama de modernidade líquida, é o próprio fluxo de mensagens que se configura como conversa, não necessariamente seu conteúdo.
Ou seja, o importante é conectar-se, trocar mensagens (e se o livro tivesse sido escrito dez anos depois, ele diria: compartilhar). A quantidade sempre pode compensar a falta de qualidade.
Conceito semelhante foi trabalhado em "A Sociedade do Espetáculo" (1968) por Guy Debord.
Lá nos anos 60, o filósofo francês dizia que o único objetivo deste constante espetáculo era continuar a reproduzir-se, como um fim em si mesmo.
Isso tudo não é um grande problema, verdade.
A verdadeira lástima é que nunca ninguém compartilha um golaço de bicicleta.