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O sono e o ônibus

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 10/02/2017-00:32:59 Atualizado em 10/02/2017-00:32:54

Bastava um velho, uma grávida ou uma mulher com criança de colo cruzar a catraca para ativar o sonífero que parecia se espraiar pelo ar dentro do ônibus.
Pegava-se no sono fácil quando eu usava transporte coletivo todo dia, até coisa de 20 e poucos anos atrás. Havia, óbvio, quem optasse pelo olhar distante pela janela, conveniente e repentinamente distraído, e até os que enfiavam a cara no meio de um livro, se houvesse livro - não existiam ainda os celulares para manter à parte os eternamente conectados a outro lugar.
Mas havia, principalmente, os que dormiam de costas curiosamente eretas quando surgia alguém que teria preferência para sentar. Não é que os dorminhocos fossem em maior número (pode até ser que fossem, mas não vou lembrar), mas é que, entre todas as formas de fuga sem sair do lugar, esta parecia a mais descaradamente descarada.
Ninguém falava do assunto - absolutamente ninguém. Os velhos, as grávidas, as mulheres com filhos pequenos apareciam, fechava-se os olhos e viagem que segue. Às vezes, e não eram tão raras vezes, mas tampouco corriqueiras, um passageiro, geralmente de meia idade, saltava do assento lépido, cordial, afastando-se para sinalizar o banco à mercê do necessitado. Os olhares eram então fisgados na direção do privilegiado e do solidário numa fração de segundos em que se misturavam pasmo, desprezo, um pouco de vergonha de si, talvez uma nesga de admiração ao gesto e, principalmente, alívio por outro ter feito o que eles evitavam ter de fazer.
Havia ainda os que se levantavam constrangidos, após alguns minutos de "não é comigo, não é comigo, alguém vai levantar antes" quando um dos três arquétipos do desconforto coletivo (o velho, a grávida, a mulher com criança de colo) parava feito um dois de paus a seu lado. O silêncio característico dos ônibus apinhados se tornava ainda mais taciturno nesses momentos de olhos focados todos no mesmo lugar, provavelmente com um pensamento igualmente coletivo: ele vai levantar? E se não levantar, levanto eu? Durmo agora?
Minto ao dizer que ninguém falava do assunto. Falavam. Mas só quando os velhos, principalmente os velhos, mas também as grávidas e as mães, não estavam lá - pensando bem, não sei porque os velhos cruzavam a catraca se não precisavam pagar passagem e podiam ficar lá na frente; só sei que alguns cruzavam.
Mas, como eu dizia, falava-se do assunto, às vezes. Lembro de duas moças conversando um dia no banco da frente. "A gente indo trabalhar e eles vão passear, e ainda escolhem bem o horário que o ônibus tá cheio. Eu não levanto mesmo". A outra concordava com a cabeça.
Nunca ninguém reclamou. Jamais um velho, uma grávida, uma mulher com criança de colo se equilibrando no ferrinho horizontal afixado ao teto baixo se indignava e dizia "como é, ninguém vai levantar pra eu sentar não?" Nunca houve indignação. Tampouco um terceiro intercedeu pelo velho, pela mãe, pela grávida, para dar uma bronca coletiva. Provavelmente, ouviria: "incomodado? Levante você".
Se acontecesse um desses barracos (reafirmo: nunca aconteceu), provavelmente o dorminhoco ocasional pensaria atrás de seus olhos convenientemente cerrados: fiz bem, ninguém pode ser culpado enquanto dorme.
Eu não quero dizer que o ônibus lotado era o retrato do Brasil, e o dorminhoco, o símbolo do brasileiro médio.
Não quero afirmar que quem dormia de mentira no ônibus é o mesmo que fecha os olhos ao mais "frágil", para não ter de concluir que, se mantiver os olhos abertos, esse fraco na verdade representará um inconveniente. Não pretendo insinuar que as duas moças conversando sobre os velhos inoportunos são os que bradam hoje que as "minorias adoram um mimimi". Isso tudo não é uma analogia para dizer que o brasileiro adora manter seus privilégios irregulares e injustos.
Mas, naquela época, jamais me senti tão encravado no Brasil que tanto se desenhava como "o Brasil real" como quando estava nesses ônibus lotados dos anos 90.