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O homem pontual

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 23/02/2017-23:49:23 Atualizado em 24/02/2017-00:04:44

O Claudião aqui do jornal foi ao dentista outro dia. Na primeira consulta, recebeu diagnóstico, orçamento e a promessa:
- Eu não atraso.
Claudião cobriu sua estupefação com silêncio. Esperou pra ver. Nas consultas seguintes, atestou a pontualidade do profissional.
O médico, ou o dentista, atender na hora marcada virou diferencial. Valor agregado. Assim como o político que vende honestidade como uma de suas qualidades.
Ninguém reclama de atraso. O brasileiro se acostumou. Esperar é um hábito nacional. Conheço uma dentista que atende pontualmente com 40 minutos de atraso. Levo um livro e fica por isso. Chego mesmo a gostar da oportunidade de ler umas 15 páginas em um ambiente diferente. Jamais reclamei.
Não fui sempre assim. Acostumei. Há alguns anos, fiquei horas na fila do oftalmologista. Meu desespero aumentava conforme as caras resignadas na sala apinhada revelavam em conversas com os colegas de espera: "Você também tá marcado pras duas?" Todo mundo estava marcado pras duas. E já eram três e meia. E ninguém reclamava. E eu me perguntava: "Por que é que diabos ninguém reclama?" Bolei planos. Na minha vez reclamaria, meteria o dedo na cara do médico: "Quem você pensa que é, meu amigo?" Depois, denunciaria ao plano de saúde. Duas horas de espera.
Fui chamado às quatro, pronto pra esbravejar. Abri a porta e encontrei sob o jaleco um médico sorridente, solícito, simpático. Ele disse, como se nada houvesse: - Tudo bem, meu jovem?
Meu plano de revolta foi dilacerado por um atendimento, demorado, detalhado. Não reclamei, e ainda saí pensando: "Atrasa, mas é bom. Ainda volto nesse oftalmo."
Alguém (não lembro quem, um jornalista, acho) disse um dia, ao explicar por que se recusava a conhecer o Maluf: "Vai que eu gosto do sujeito." Todo político de moral duvidosa costuma ser um autêntico boa praça, assim como todo médico que atrasa. O brasileiro é mesmo um homem cordial, e aqui não vai nenhum elogio ou novidade. Já foi dito em 1936, pelo Sérgio Buarque de Hollanda, no "Raízes do Brasil". A emoção, o compadrio, o afeto; até o fato de torcer pro mesmo time já supera o conflito. A gente desculpa fácil, aceita fácil, gosta fácil, é fácil de ser gostado. E ninguém reclama do atraso. Levamos livros, o smartphone e a paciência, porque fila de médico é assim mesmo, e ninguém quer um barraco.
Gozado que a gente tenha mais paciência com atraso de médico e de avião do que com atraso de marmita e pizza e ônibus, mas é só uma divagação que não vai chegar a lugar algum. Talvez a gente seja mais condescendente com quem é chamado de doutor, assim como somos mais tolerantes com nossos erros do que com os dos outros, mas apenas talvez.
Nos dias das consultas com o dentista que não atrasa, o Claudião ficou com um medo danado, se aprontou depressa e saiu antes do que precisava. Imagine o constrangimento de chegar atrasado ao médico que não atrasa? (como eu mesmo já atrasei, e não ganhei sequer uma mísera bronca, apenas um olhar de cumplicidade que queria dizer: "acontece com todos nós").
Imagine se a coisa toda funcionasse direitinho, e tivéssemos de funcionar do mesmo modo perfeito (todo mundo sabe que a aula na faculdade nunca começou às 19h, mas às 19h10, 19h15)?. Imagine se tivéssemos de marcar as coisas pras dez e quinze, e não pras "dez e pouco." Dizem que o homem se acostuma com tudo, mas não sei se o brasileiro iria se acostumar com a pontualidade alheia. E, muito menos, com a própria.