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O prefeito das bravatas

Editorial

08/02/2017-23:23:36 Atualizado em 09/02/2017-00:49:15

Um dos maiores prejuízos que um político pode causar à sua cidade é governar do mesmo modo como faz campanha: vociferando bravatas.
O problema central desse tipo de conduta é que, depois de eleito, o "vociferar" costuma se manifestar por meio de decretos que podem dar à população a impressão de que, sim, ele tem aquilo roxo e vai fazer acontecer - afinal, pôs até no papel. O estilo parece servir como luva a Luiz Dalben (PPS), prefeito de Sumaré, que transformou duas bravatas em atos de governo e, agora, colhe o sabor amargo das derrotas judiciais que suas intempestivas decisões enfrentaram.
Primeiro, Dalben, que já havia declarado guerra à Odebrecht Ambiental faz tempo, extinguiu a tarifa mínima de água, que era de 10 metros cúbicos, por meio de uma lei aprovada na Câmara. Simples assim. Sem uma ampla e eficiente pesquisa legal, sua iniciativa foi desmontada poucos dias depois por um juiz que apontou questão comezinha como argumento: Dalben desrespeitou o contrato. Simples assim.
Que ninguém diga que a intenção até possa até ser justa. Afinal, pagar pelo que se consome de água é bastante razoável.
O problema é que um prefeito não é pago para posar de justo, e sim para fazer o justo se tornar possível, por meio de eficiência administrativa e conhecimento legal das normas estabelecidas - para, aí sim, mudar essas normas. Transformações exigem mais trabalho e política (a boa política, do convencimento, da conquista; e não do confronto bruto e simples) e menos falatório revestido de uma legalidade tão sustentável quanto as roupas no varal durante um vendaval.
Na esteira do comportamento bravateiro, novo revés, desta vez na saúde. Após um relatório do Cremesp apontar péssimas condições em duas unidades de saúde, a UPA do Macarenko e o PA do Matão (justamente as duas que a Associação Pró-Saúde foi contratada - legalmente contratada, goste-se ou não - para administrar), o prefeito decretou intervenção em ambas.
O argumento do juiz que derrubou a intervenção foi novamente simples: Dalben não respeitou a legislação vigente. Dalben sempre poderá dizer que deu a solução aos problemas, ou que ao menos tentou dar, mas que "não deixaram".
Assim como transformar bravatas - já condenáveis quando usadas apenas em campanhas - em ações de governos não é inédito, jogar a culpa do insucesso das iniciativas em qualquer alguém que não seja o detentor da caneta também não seria novidade.
Quem apostou que um rosto jovem traria alguma espécie de renovação política deve ter percebido que a "juventude" em Sumaré parou na idade do prefeito - o que não deixa de ser uma qualidade neste caso, já que dizem que, para os jovens, é mais fácil mudar. E há sempre tempo para mudar.