OK
Close

A sensação é pior

Um pouco mais... por George Aravanis

George Aravanis | Editor executivo do jornal TODODIA - 02/02/2017-23:56:34 Atualizado em 03/02/2017-01:13:18

O grande problema número 1 é que qualquer imbecil pode dizer o que lhe vem à cabeça com audiência garantida.
O grande problema número 2 é que não temos como mudar isso (se você crê em Deus, São Francisco de Assis é sempre uma boa pedida, com seu famoso apelo de "resignação para aceitar o que não pode ser mudado").
O grande problema número 3 é que costuma-se achar que esses imbecis representam parte significativa de alguma coisa, uma espécie de símbolo de uma era. Não representam, não são.
O grande problema número 4 é que não sei se tenho certeza da frase anterior.
Mas sei que qualquer manifestação de bestialidade é o combustível ideal ao medo, à divisão e, principalmente, à descrença.
Assim como dois assaltos no mesmo mês em um bairro sossegado roubam dos moradores a tranquilidade que nem suspeitavam que detinham, dois comentários acéfalos na sua linha do tempo no Facebook, festejando por exemplo a morte de Marisa Letícia, ex-primeira-dama, são o bastante para tirar de você a crença num mundo um pouquinho melhor que este. Eu sei, a coisa é tão absurda que chega a paralisar de incredulidade.
Mas sei também que é o extremo que nos aguça os sentidos, jamais o regular. Por isso quem doa uma grande quantia de dinheiro a um desconhecido é sempre notícia, tão notícia quanto um crime que choca pela crueldade. Por isso aquele seu vizinho trabalhador, gente boa, mas que não tem nenhuma habilidade especial, como fazer o maior presépio da cidade no Natal, nunca foi notícia.
O extremo do bem e o oposto do mal sempre deixam o ordinário, o frugal, sob uma espessa neblina de anonimato.
Afinal, quem transitou entre os extremos do céu e do inferno - um ex-viciado criminoso que abandonou as drogas e o crime e venceu na vida, por exemplo -, sempre tem uma biografia muito mais interessante do que o sujeito que persistiu na sua longa e enfadonha caminhada dentro das regras da regularidade.
Estes são, porém, a maioria, provavelmente. O cidadão comum. E ele não é muito interessante. Nem muito raivoso. Nem tão imbecil (de novo, alerto não ter certeza). Este cidadão, parecido com seu vizinho, não nos faz projetar um simulacro de mundo dividido em duas ilhas - de um lado, ódio (os que festejam a morte de Marisa Letícia), de outro, puro amor (provavelmente você e o cara que doou aquela grande quantia ao desconhecido).
São os grandes idiotas do "mal" que nos ajudam a desenhar o mundo como alguns querem crer que é. Mas a verdade é que idiotas maldosos sempre existiram (talvez até em maior número no passado), o Facebook apenas transportou as conversas da sala deles para a sua.
A maioria das pessoas, creio, não festejou morte alguma, e nem entrou em guerra com quem festejou. A maioria das pessoas poderia estar roubando, matando, guerreando no Face, mas está só tocando a vida e assistindo à TV. Considerando as estatísticas, é muito mais provável que você não seja assaltado, mesmo morando num bairro roubado duas vezes em um mês.
Mas você vive com medo de assalto. Quem não?