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'Eu não disse?'

Lance Livre por Claudio Gioria

Claudio Gioria | Editor-chefe do TODODIA e escreve aos sábados - 11/02/2017-00:02:26 Atualizado em 11/02/2017-00:47:49

Vou generalizar, mas toda generalização é odiosa. É óbvio que existem exceções. Mas cada vez mais, elas são exceções.
O jornalista esportivo não consegue analisar sem profetizar. Parece algo mais forte, do âmago do comentarista, que o faz ir um passo além. Ele não resiste, essa é a verdade. E nem estou falando dos famosos "chutes" sobre este ou aquele reforço. Apenas de análises.
Gabriel Jesus vai ser melhor que Neymar. Federer está acabado. Ronaldo Fenômeno, depois de mais uma cirurgia, não conseguirá jogar em alto nível...
Quantos novos Pelés, novos Maradonas, novos Messis não ganharam as páginas de jornais nos últimos 40 anos?
Não basta analisar e projetar algo que possa acontecer com base naquilo que está acontecendo. O prazer está em prever o futuro. Prever não. Adiantar com uma certeza de fazer inveja à falecida Mãe Dinah. Sempre acompanhada de algo do tipo: "pode anotar", "pode me cobrar", "sei o que estou falando" e outras do gênero.
Jornalista esportivo tem sempre na ponta da língua os motivos de um fracasso ou de um sucesso antes que ele aconteça. Nada demais se o fracasso ou o sucesso não se referissem a um mesmo caso.
Uma pena que não guardei uma coluna de um famoso jornalista esportivo de São Paulo que enviou dois textos antes da final da Copa de 1998 porque não teria como escrever depois da decisão Brasil x França. Uma explicando o fracasso (o que foi publicado) e outro explicando o sucesso (esse que eu deveria ter guardado e não guardei).
Isso vem se agravando de uns tempos pra cá.
Diz o ditado que advogado acha que é Deus, jornalista tem certeza. O jornalista esportivo agora não só tem certeza, como já está exercendo umas das funções atribuídas a Deus, a de saber o que está por vir.
E ai do jornalista esportivo de hoje que não nasceu com a capacidade de prever o futuro.
Só fica em cima do muro. Fracassado. Tucano.
Exige-se dele uma postura mais incisiva não sobre o que aconteceu, mas sobre o que irá acontecer. E nada de projetar o que pode acontecer. Jornalista esportivo dos bons precisa cravar o que vai acontecer. É o mínimo que dele se espera.
Aliás, não consigo saber se é isso que dele se espera ou se foi ele o culpado para que dele exigissem isso. Não sei se foi o ovo ou a galinha que começou a história. Mas o jornalismo esportivo - e quem lê essa coluna, sabe que tenho várias ressalvas sobre o jornalismo em geral que se faz hoje - foi engolido em grande parte pela sociedade do espetáculo. Pela sociedade que pouco se preocupa em ter informação de qualidade para formar opinião sobre algo antes de sair compartilhando/reproduzindo qualquer bobagem.
Engolido pela aparência, não pela essência. Pela forma, não pelo conteúdo. Previsões pueris engolindo análise.
Se é isso que dá audiência, leitura, estamos perdidos.
Se o Neto gritando algo dá mais Ibope que o PVC analisando, estamos perdidos.
Mas o pior nem é isso. O pior é quando a vidência se concretiza e vem acompanhada do famoso "eu não disse?". Aí não resta outra coisa a fazer a não ser antecipar o futuro e desligar a TV.

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